sábado, 24 de maio de 2008

09/02/08 Boudhanath, Vale de Kathmandu, Nepal


Após quase dois dias de viagem chegamos à mítica Kathmandu, capital do Nepal.

Partimos de Lisboa dia 7 rumo a Londres onde uma diferença de oito horas entre voos apenas foi suficiente para uma rápida olhada ao centro. É uma cidade enorme que eu ainda não conheço, e o passeio nocturno limitou-se ao espaço entre duas paragens de autocarro. Ao longe consegui distinguir o tão conhecido London Eye, de resto só os autocarros encarnados de dois andares, os típicos táxis londrinos e os sentidos de trânsito contrários aos nossos denunciaram o identidade do local.

De Heathrow voamos para Milão. Uma escala de duas horas em Malpenza para uma rápida mudança de avião, e daí para Nova Delhi, num voo diurno, cheio de turbantes temíveis, de oito horas mais um valente atraso. Só na capital indiana, cidade de proporções bíblicas, 14.1 milhões de habitantes e um cheiro intenso a uma mistura de caril, incenso e poluição é que comecei a realizar para onde me dirigia: Para um mundo que eu não conheço.

Aproveitamos a longa escala e marcamos o voo para Goa, para depois do Nepal. Saímos do Aeroporto Internacional e fomos para o de voos internos, perto, num táxi muito negociado. Àquela hora (algures depois da meia noite), o trânsito era um verdadeiro caos e dei por mim a imaginar como seria de dia e nas horas de ponta. Talvez a imagem apocalíptica que trago agora na cabeça se verifique quando voltar, mas por agora só penso no Nepal. Voltamos para o nosso aeroporto, já de bilhetes comprados, e esperamos. No tempo restante não pregamos olho.

A minha primeira impressão do povo indiano foi altamente negativa. São chatos, andam colados às nossas costas, parece-me que não conhecem o significado de privacidade, falam um inglês limitado e incompreensível e passam muito ao lado dos padrões ocidentais de higiene. Talvez seja uma descrição negativa demais por ter estado muito cansado na altura, uma descrição mesmo pouco razoável. De qualquer maneira isto não passa de uma ingénua primeira impressão. A verdade é que me senti deslocado como nunca me tinha sentido.

Finalmente chega a nossa hora. Entramos então num longo e desorganizado processo de check-in, controlo de passaportes, controlo de segurança, novo controlo de passaportes, carimbos, etc… para, enfim, voarmos rumo ao Nepal com, naturalmente, um atraso de quatro horas.

Pela primeira vez faço uma viagem sem estudo detalhado prévio. Sempre tive a tendência de pesquisar tudo ao pormenor antes de partir. Desta vez decidi que quero ver tudo pela primeira vez sem o peso de expectativas criadas anteriormente, pois o que acontece muitas vezes é a desilusão pelo sítio não ser como nós o imaginamos, ou como nós queríamos que ele fosse. A decisão de partir foi tomada depois de ler o livro de Luís Guimarães. Ele começou no Nepal e seguiu para o Tibete. Nós também começamos no Nepal, mas depois voltamos para a Índia. Quaisquer estudos sobre o povo, sobre a história, números e estatísticas vão ser feitos só a partir de agora, logo é provável que factos que sejam à partida importantes percam a relevância para o que quer que vá descobrindo e que me desperte maior atenção. Também devo acrescentar que nunca na minha vida me senti inclinado para a escrita e que sempre fui um dos piores alunos a português na escola, mas agora escrevo o que sinto e admito que me dá um enorme gozo. Não sei por que escrevo, nem para quem escrevo. Estou só a responder a uma vontade.

Neste momento estou no Boudha. Literalmente. Kathmandu é, na realidade, uma das cidades, ou aglomerado urbano, do vale com o mesmo nome. Ora o “aglomerado” onde dormimos chama-se Boudhanath, mais conhecido por Boudha, zona dominada, como o nome indica, pelo budismo.

O Vale de Kathmandu não é, como se pode imaginar pela própria carga mágica que a ideia de vale desperta, um espaço cheio de cidadezinhas encantadas por verdes florestas radiosas. As cidadezinhas estão lá. Mas em vez de árvores, as “florestas” contêm prédios dispersos pontualmente, aparentemente sem uma lógica perceptível. Os espaços entre os centros urbanos principais, onde encontramos os templos, monumentos e vida citadina, são campos vastos cheios de pontos paralelipipédicos construídos como um conjunto de teclas de piano espetadas verticalmente. Todos eles são muito altos e estreitos, entre os dois e os oito nadares cada, dentro de um estilo muito próprio. Entre estas construções ou há pequenas plantações ou espaços com níveis de lixo e porcaria muito elevados sendo que as ruas e caminhos vão ziguezagueando dinamicamente abrindo passagem ao milhão e meio de habitantes desta “floresta urbana”. Seria injusto atribuir toda a mística deste buraco perdido nos Himalaias às “cidadezinhas”, com os seus templos nos centros históricos. Tudo aqui é parte de uma entidade mágica. O poder do local sente-se naturalmente.

A aterragem no vale fez-me lembrar um daqueles filmes sobre tráfico de droga onde, depois de paisagens assustadoramente belas sai-se, no aeroporto, para uma sala de chegadas, ampla, interiormente um espaço solarengo com música de fundo e de ambiente familiar com duas ou três lojas, três ou quatro não profissionais a tratar das entradas fronteiriças e outros tantos membros do exército. Embora o aeroporto pareça, ou é mesmo, muito maior para quem está na cidade, do que para quem vem aterrar.

O caminho para o Boudha aterrorizou-me, e finalmente caí em mim. Estou longe de tudo o que conheço e que acho civilizado. No meio do nada, e de tudo. Há pessoas em todo o lado, vendedores ambulantes, grupos de lamas, grupos de estudantes fardados, mulheres lindas e possantes nos seus saris coloridos, pessoas transfiguradas na sua pobreza lamacenta, macacos, vacas, motas, carros, autocarros, buzinas constantes, movimento, muito movimento, cores exuberantes, lixo, luz, muitos tons de cinzentos salpicados por pequenas explosões de cor, cheiro intenso, intensidade, muita intensidade. Penso que intensidade, pelo pouco que vi até agora, é a palavra que melhor descreve a actividade nesta parte do globo. E quando digo “nesta parte de globo”, refiro-me à Ásia em geral. Penso eu.

Quando saímos do táxi que nos trouxe, uma pão de forma pequena a cair de velha e guiada por um miúdo com no máximo quinze anos, fomos arrastados por uma multidão de nepaleses. Senti-me atacado por todos os lados, tive a certeza de que ia sair dali nu, iam-me roubar tudo! Por azar, ou por sorte, festejava-se ali perto o início do ano e os últimos dias tinham sido de maior intensidade ainda. Escapamos ilesos. Viria a perceber mais tarde que este é um povo muito pacífico e moralmente correcto. Ainda não vi uma cara zangada, nem uma expressão resignada. Em Portugal, ouvir uma buzinadela, é como receber um insulto. Aos ouvidos dos portugueses a buzinadela ganhou uma carga negativa que dá ao condutor que a recebe um impulso instantâneo de resposta na mesma moeda. Um nepalês tem a humildade intrínseca de aceitar o erro caso receba uma! Diga-se também que Kathmandu é a capital da buzina. O barulho das ruas é ensurdecedor. O mal talvez esteja no excesso de erros ao volante! Enfim, ainda assim talvez os mais civilizados ao volante sejam eles, se por civilizados estivermos a encarar o grau de positivismo/negativismo da atitude subjacente, já que nas suas intenções não me parece haver maldade, ou se há, não é exprimida exteriormente. Por fim lá encontramos a praça de Boudhanath, o local combinado para o encontro com o Lama que nos vai dar dormida.

Do alto da torre dourada da estupa ao centro da praça dois olhos espreitam o infinito debaixo do qual uma elevação semi-esférica percorrivel se desenvolve. É enorme em comparação com as construções que fomos vendo no caminho. Estupa é um local de culto budista e esta é a maior do mundo! Tem de ser percorrida no sentido dos ponteiros do relógio numa rua circunscrita. Familiarizo-me rapidamente com a zona: Uma série de ruelas sujas com muito comércio. A casa onde dormimos é a dois minutos da praça e vai servir de quartel-general para os próximos dias nepaleses. O nosso amigo é um Lama (monge budista) e chama-se Karma. No outro quarto que tem para alugar vive uma americana meio esotérica com a sua filha.

Nessa noite recompensamos o cansaço acumulado dos dois dias de viagem. Acordamos no dia seguinte com a música monossilábica dos monges. Um som do mesmo tipo dos que se ouvem no filme “Sete anos no Tibete”. A mim soube-me a céu. Tenho pena de não poder ir ao Tibete. A viagem era demasiado cara para as nossas carteiras e decididamente que ficará para outra vez. Certamente não vou morrer antes de ver esse País. Recuso-me reconhecer a soberania chinesa naquele território. Nunca essas terras foram suas por direito, e a sua invasão foi o acto de maior cobardia que a história conhece. Sem exército sequer para derrotar em poucos dias os chineses ocuparam todo o território facilmente sem qualquer tipo de remorso. Obviamente que parte dessa cobardia é dos países ocidentais, que absolutamente nada fizeram ou fazem para impor a justiça nessa parte do mundo, enquanto espalham guerras pelo resto do mundo fora. Fecham os olhos às atrocidades cometidas e abraçam as iniciativas de disfarce da China, que não são, para já, associáveis à imoralidade das suas politicas. No nosso mundo sentimo-nos moralmente superiores, mas ninguém pode acusar o povo tibetano de qualquer imoralidade, são eles os verdadeiros reis dos valores morais, e os chineses os verdadeiros reis do que de pior continua a haver no mundo, e nós, no conforto da nossa segurança, ignoramos. Ferramentas para entrar em acção a favor da paz não nos faltam. Estamos corroídos pela preguiça. O Tibete faz muita falta ao mundo e agora que o seu povo começa a reclamar o que é seu temos obrigação de os ajudar. Acredito que a história vai sorrir-lhes. E que não vai ser o Tibete a cair nas garras do Maoísmo, mas a China a render-se ao pacifismo tibetano.

Voltando a esta manhã divinal. Levantamo-nos, vestimo-nos e apanhamos um táxi para Pashupatinath, não muito longe do Boudha, dez minutos aproximadamente. Pashupati é um complexo religioso hindu. O hinduísmo é a religião em maioria no Nepal, cerca de 80% da população. Como falar desta maravilha na terra coerentemente? Não se assemelha a nada que eu já tenho visto, a não ser em ficção. Cenas tão bizarras como corpos a arderem em plataformas de culto junto ao rio local, sagrado, e afluente do Ganges. Sadus, ou “holy man” como lhes chamam por cá, de oitenta anos a fumar marijuana e a fazer posições de yoga que eu jamais farei, muitos templos dedicados aos muitos deuses, uma plataforma onde outrora se fizeram sacrifícios humanos, tendas de vendedores pelo meio, crentes, alegria, tristeza, devoção, tudo parte de um mundo surreal que eu pensava já não existir. Mas aqui existe, e tem mesma força e a mesma energia que tem tido ao longo dos séculos.

Arranjamos lá um guia que nos dá as primeiras luzes sobre o hinduísmo. É uma religião demasiado complexa, dita as vidas desta gente e marca fortemente uma cultura orgulhosa e imutável. A Índia, dominada pelo hinduísmo, foi dos poucos sítios de todo o império português onde o catolicismo nunca imperou, em vez disso, as principais figuras da nossa religião, como Maria e Jesus, foram abraçadas e absorvidas pelo hinduísmo como mais umas das inúmeras divindades a contemplar e seguir. Pessoalmente, e ainda na minha ignorância, identifico-me mais com a clareza e simplicidade do Budismo na sua ligação à natureza e aos valores essenciais. Os hindus aceitam a sua religião e não a questionam. A sua devoção é sem dúvida comovente, a alegria e a tristeza andam de mãos dadas. Mais do que isto não sei, penso que a Índia me vai mostrar mais sobre o assunto do que o Nepal.

Sei sim que se um homem matar um macaco, mesmo que por acidente, vai três anos preso, e o mesmo acontece com as vacas, mas aí a parada sobe para quinze. Também sei que, quando o marido morre, a sua mulher nunca mais poderá usar encarnado, mas o contrário não se verifica. Sei que só os Sadus e os bebés são enterrados em cemitérios. As pessoas restantes são cremadas e as suas cinzas deitadas ao rio local, que é um afluente do Ganges. Aprendi que os homens têm de arder por duas horas e meia e, curiosamente, as mulheres por três. Soube que quando morre alguém rico, depois de devidamente queimado, começa uma competição para se descobrir os prováveis dentes de ouro ou adereços debaixo da água imunda do rio. Vi as diferentes plataformas de cremação para as diferentes classes sociais: pobres, homens de negócio, ricos e família real. Esta última foi usada em 2001 após a morte trágica de vários membros da realeza. O príncipe Dipendra após conflitos com os pais sobre um alegado namoro, cometeu homicídio em massa, suicidando-se no final. Não foi só uma tragédia nacional, foi o maior acontecimento do género depois dos Romanov em 1918 durante a revolução russa. Vi ainda, num mesmo edifício, quadrangular com um pátio no meio, a partilha no dia-a-dia de duas centenas de pessoas que vivem sem nada, algumas a dormir no pátio pois não há lugar para todos no interior. Numa das alas, dedicada aos doentes, vi a miséria onde a lepra, malária e outras doenças igualmente terríveis são pacientemente tratadas por um grupo de irmãs católicas. Mais tarde soube que foi a Madre Teresa de Calcutá quem fundou o edifício.

É surpreendente a espontaneidade com que coisas que se acham, no mínimo, muito improváveis, acontecem miraculosamente nestes lados. No meio de um complexo Hindu, o mais importante do Nepal e um dos mais importantes do mundo, surgem um grupo de devotas de Cristo, totalmente abraçadas pela população local, sem qualquer tipo de pressão conflituosa pela diferença religiosa ou étnica. A aceitação do próximo é, por cá, um valor intrínseco, independentemente da cor, língua ou religião. Imagine-se o furor que um ritual hindu despertaria na Europa. Neste espaço assistimos a rituais antigos, desprovidos de vaidade ou vergonha, todos estes templos, ruelas, becos e plataformas são percorriveis, palpáveis. Pode-se entrar, tocar cada pedra, sem o medo que ela por qualquer razão parva se desmorone. Não há corredorezinhos à distância turística. A magia permanece inabalável como sempre foi. Custa-me pensar na possibilidade de um dia deixar de ser como é e prefiro acreditar profeticamente na sua permanência. Não consigo encaixar na minha imaginação Pashupatinath turística, sem sadus, sem cremações, sem devotos, ao estilo do Vaticano, com longas filas de espera para se entrar apertado, fotografar violenta e ignorantemente cada escultura do Kamasutra, cada templozinho, cada plataforma. Não quero pensar em guias turísticos que distorcem a realidade para agradar o ouvido do turista. Não quero a febre turística a contaminar a autenticidade da vivência deste lugar. Não vou voltar um dia se for para ter uma desilusão.

Pela tarde fomos a Bakhtapur, outro pólo urbano do vale, o terceiro mais populoso e o mais limpo. Esta cidade foi casa de um dos três reis que habitavam o vale, segundo um local, que nos foi acompanhando. A partir da “Durbar square”, praça do palácio, uma série de ruazinhas de pedra apertadas entre edifícios relativamente altos e majestosos abrem-se periodicamente em pracetas com templos impressionantes. Um deles é o mais alto da zona. O comercio local é de melhor qualidade, e com os preços a descerem cerca de 70% do inicial após negociação cerrada, enchemos alguns sacos com paxeminas e caxemiras. Vimos um combate de Thai-kon-do na rua, uma escola de pintura budista (onde me convenceram a largar uma pequena fortuna por um quadro de um palmo), e acabamos a tarde numa esplanada de cerveja na mão, com o cenário dos Himalaias a surgir entre a neblina.

De noite, de regresso a casa, depois de um arroz com lentilhas e carne de búfalo (vou acreditando que é mesmo búfalo) muito picante fomos dormir. Acordo às quatro da manhã com o ladrar incansável de um cão. Já não vou conseguir dormir mais. Escrevo. Um sino toca de hora a hora. Sinto-me livre como nunca senti. A música dos monges não tarda em recomeçar. Estou feliz.

O Stefano, o meu companheiro nesta viagem, acorda pouco depois. Gozamos esta manhã espectacular com a noção de estarmos perdidos nos Himalaias. Estar longe da vida que conheço, num mundo que não é o meu, mas que me abraça como se eu fosse dele, é uma sensação que não se escreve, pura e simplesmente sente-se.

O Stefano faz um chá. Dou dois tragos valentes quando o chá está mais arrefecido. Infelizmente não é muito bom. Insisto com outro gole, mas definitivamente é o pior chá que alguma vez bebi… O Stefano continua a bebê-lo com cara de quem bebe o melhor chá do mundo. Volto a insistir e apercebo-me do sabor salgado. Lembro-me de lhe pedir que pusesse açúcar no meu. O fim da história está-se mesmo a ver...

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