sábado, 24 de maio de 2008

09/02/08 Boudhanath, Vale de Kathmandu, Nepal


Após quase dois dias de viagem chegamos à mítica Kathmandu, capital do Nepal.

Partimos de Lisboa dia 7 rumo a Londres onde uma diferença de oito horas entre voos apenas foi suficiente para uma rápida olhada ao centro. É uma cidade enorme que eu ainda não conheço, e o passeio nocturno limitou-se ao espaço entre duas paragens de autocarro. Ao longe consegui distinguir o tão conhecido London Eye, de resto só os autocarros encarnados de dois andares, os típicos táxis londrinos e os sentidos de trânsito contrários aos nossos denunciaram o identidade do local.

De Heathrow voamos para Milão. Uma escala de duas horas em Malpenza para uma rápida mudança de avião, e daí para Nova Delhi, num voo diurno, cheio de turbantes temíveis, de oito horas mais um valente atraso. Só na capital indiana, cidade de proporções bíblicas, 14.1 milhões de habitantes e um cheiro intenso a uma mistura de caril, incenso e poluição é que comecei a realizar para onde me dirigia: Para um mundo que eu não conheço.

Aproveitamos a longa escala e marcamos o voo para Goa, para depois do Nepal. Saímos do Aeroporto Internacional e fomos para o de voos internos, perto, num táxi muito negociado. Àquela hora (algures depois da meia noite), o trânsito era um verdadeiro caos e dei por mim a imaginar como seria de dia e nas horas de ponta. Talvez a imagem apocalíptica que trago agora na cabeça se verifique quando voltar, mas por agora só penso no Nepal. Voltamos para o nosso aeroporto, já de bilhetes comprados, e esperamos. No tempo restante não pregamos olho.

A minha primeira impressão do povo indiano foi altamente negativa. São chatos, andam colados às nossas costas, parece-me que não conhecem o significado de privacidade, falam um inglês limitado e incompreensível e passam muito ao lado dos padrões ocidentais de higiene. Talvez seja uma descrição negativa demais por ter estado muito cansado na altura, uma descrição mesmo pouco razoável. De qualquer maneira isto não passa de uma ingénua primeira impressão. A verdade é que me senti deslocado como nunca me tinha sentido.

Finalmente chega a nossa hora. Entramos então num longo e desorganizado processo de check-in, controlo de passaportes, controlo de segurança, novo controlo de passaportes, carimbos, etc… para, enfim, voarmos rumo ao Nepal com, naturalmente, um atraso de quatro horas.

Pela primeira vez faço uma viagem sem estudo detalhado prévio. Sempre tive a tendência de pesquisar tudo ao pormenor antes de partir. Desta vez decidi que quero ver tudo pela primeira vez sem o peso de expectativas criadas anteriormente, pois o que acontece muitas vezes é a desilusão pelo sítio não ser como nós o imaginamos, ou como nós queríamos que ele fosse. A decisão de partir foi tomada depois de ler o livro de Luís Guimarães. Ele começou no Nepal e seguiu para o Tibete. Nós também começamos no Nepal, mas depois voltamos para a Índia. Quaisquer estudos sobre o povo, sobre a história, números e estatísticas vão ser feitos só a partir de agora, logo é provável que factos que sejam à partida importantes percam a relevância para o que quer que vá descobrindo e que me desperte maior atenção. Também devo acrescentar que nunca na minha vida me senti inclinado para a escrita e que sempre fui um dos piores alunos a português na escola, mas agora escrevo o que sinto e admito que me dá um enorme gozo. Não sei por que escrevo, nem para quem escrevo. Estou só a responder a uma vontade.

Neste momento estou no Boudha. Literalmente. Kathmandu é, na realidade, uma das cidades, ou aglomerado urbano, do vale com o mesmo nome. Ora o “aglomerado” onde dormimos chama-se Boudhanath, mais conhecido por Boudha, zona dominada, como o nome indica, pelo budismo.

O Vale de Kathmandu não é, como se pode imaginar pela própria carga mágica que a ideia de vale desperta, um espaço cheio de cidadezinhas encantadas por verdes florestas radiosas. As cidadezinhas estão lá. Mas em vez de árvores, as “florestas” contêm prédios dispersos pontualmente, aparentemente sem uma lógica perceptível. Os espaços entre os centros urbanos principais, onde encontramos os templos, monumentos e vida citadina, são campos vastos cheios de pontos paralelipipédicos construídos como um conjunto de teclas de piano espetadas verticalmente. Todos eles são muito altos e estreitos, entre os dois e os oito nadares cada, dentro de um estilo muito próprio. Entre estas construções ou há pequenas plantações ou espaços com níveis de lixo e porcaria muito elevados sendo que as ruas e caminhos vão ziguezagueando dinamicamente abrindo passagem ao milhão e meio de habitantes desta “floresta urbana”. Seria injusto atribuir toda a mística deste buraco perdido nos Himalaias às “cidadezinhas”, com os seus templos nos centros históricos. Tudo aqui é parte de uma entidade mágica. O poder do local sente-se naturalmente.

A aterragem no vale fez-me lembrar um daqueles filmes sobre tráfico de droga onde, depois de paisagens assustadoramente belas sai-se, no aeroporto, para uma sala de chegadas, ampla, interiormente um espaço solarengo com música de fundo e de ambiente familiar com duas ou três lojas, três ou quatro não profissionais a tratar das entradas fronteiriças e outros tantos membros do exército. Embora o aeroporto pareça, ou é mesmo, muito maior para quem está na cidade, do que para quem vem aterrar.

O caminho para o Boudha aterrorizou-me, e finalmente caí em mim. Estou longe de tudo o que conheço e que acho civilizado. No meio do nada, e de tudo. Há pessoas em todo o lado, vendedores ambulantes, grupos de lamas, grupos de estudantes fardados, mulheres lindas e possantes nos seus saris coloridos, pessoas transfiguradas na sua pobreza lamacenta, macacos, vacas, motas, carros, autocarros, buzinas constantes, movimento, muito movimento, cores exuberantes, lixo, luz, muitos tons de cinzentos salpicados por pequenas explosões de cor, cheiro intenso, intensidade, muita intensidade. Penso que intensidade, pelo pouco que vi até agora, é a palavra que melhor descreve a actividade nesta parte do globo. E quando digo “nesta parte de globo”, refiro-me à Ásia em geral. Penso eu.

Quando saímos do táxi que nos trouxe, uma pão de forma pequena a cair de velha e guiada por um miúdo com no máximo quinze anos, fomos arrastados por uma multidão de nepaleses. Senti-me atacado por todos os lados, tive a certeza de que ia sair dali nu, iam-me roubar tudo! Por azar, ou por sorte, festejava-se ali perto o início do ano e os últimos dias tinham sido de maior intensidade ainda. Escapamos ilesos. Viria a perceber mais tarde que este é um povo muito pacífico e moralmente correcto. Ainda não vi uma cara zangada, nem uma expressão resignada. Em Portugal, ouvir uma buzinadela, é como receber um insulto. Aos ouvidos dos portugueses a buzinadela ganhou uma carga negativa que dá ao condutor que a recebe um impulso instantâneo de resposta na mesma moeda. Um nepalês tem a humildade intrínseca de aceitar o erro caso receba uma! Diga-se também que Kathmandu é a capital da buzina. O barulho das ruas é ensurdecedor. O mal talvez esteja no excesso de erros ao volante! Enfim, ainda assim talvez os mais civilizados ao volante sejam eles, se por civilizados estivermos a encarar o grau de positivismo/negativismo da atitude subjacente, já que nas suas intenções não me parece haver maldade, ou se há, não é exprimida exteriormente. Por fim lá encontramos a praça de Boudhanath, o local combinado para o encontro com o Lama que nos vai dar dormida.

Do alto da torre dourada da estupa ao centro da praça dois olhos espreitam o infinito debaixo do qual uma elevação semi-esférica percorrivel se desenvolve. É enorme em comparação com as construções que fomos vendo no caminho. Estupa é um local de culto budista e esta é a maior do mundo! Tem de ser percorrida no sentido dos ponteiros do relógio numa rua circunscrita. Familiarizo-me rapidamente com a zona: Uma série de ruelas sujas com muito comércio. A casa onde dormimos é a dois minutos da praça e vai servir de quartel-general para os próximos dias nepaleses. O nosso amigo é um Lama (monge budista) e chama-se Karma. No outro quarto que tem para alugar vive uma americana meio esotérica com a sua filha.

Nessa noite recompensamos o cansaço acumulado dos dois dias de viagem. Acordamos no dia seguinte com a música monossilábica dos monges. Um som do mesmo tipo dos que se ouvem no filme “Sete anos no Tibete”. A mim soube-me a céu. Tenho pena de não poder ir ao Tibete. A viagem era demasiado cara para as nossas carteiras e decididamente que ficará para outra vez. Certamente não vou morrer antes de ver esse País. Recuso-me reconhecer a soberania chinesa naquele território. Nunca essas terras foram suas por direito, e a sua invasão foi o acto de maior cobardia que a história conhece. Sem exército sequer para derrotar em poucos dias os chineses ocuparam todo o território facilmente sem qualquer tipo de remorso. Obviamente que parte dessa cobardia é dos países ocidentais, que absolutamente nada fizeram ou fazem para impor a justiça nessa parte do mundo, enquanto espalham guerras pelo resto do mundo fora. Fecham os olhos às atrocidades cometidas e abraçam as iniciativas de disfarce da China, que não são, para já, associáveis à imoralidade das suas politicas. No nosso mundo sentimo-nos moralmente superiores, mas ninguém pode acusar o povo tibetano de qualquer imoralidade, são eles os verdadeiros reis dos valores morais, e os chineses os verdadeiros reis do que de pior continua a haver no mundo, e nós, no conforto da nossa segurança, ignoramos. Ferramentas para entrar em acção a favor da paz não nos faltam. Estamos corroídos pela preguiça. O Tibete faz muita falta ao mundo e agora que o seu povo começa a reclamar o que é seu temos obrigação de os ajudar. Acredito que a história vai sorrir-lhes. E que não vai ser o Tibete a cair nas garras do Maoísmo, mas a China a render-se ao pacifismo tibetano.

Voltando a esta manhã divinal. Levantamo-nos, vestimo-nos e apanhamos um táxi para Pashupatinath, não muito longe do Boudha, dez minutos aproximadamente. Pashupati é um complexo religioso hindu. O hinduísmo é a religião em maioria no Nepal, cerca de 80% da população. Como falar desta maravilha na terra coerentemente? Não se assemelha a nada que eu já tenho visto, a não ser em ficção. Cenas tão bizarras como corpos a arderem em plataformas de culto junto ao rio local, sagrado, e afluente do Ganges. Sadus, ou “holy man” como lhes chamam por cá, de oitenta anos a fumar marijuana e a fazer posições de yoga que eu jamais farei, muitos templos dedicados aos muitos deuses, uma plataforma onde outrora se fizeram sacrifícios humanos, tendas de vendedores pelo meio, crentes, alegria, tristeza, devoção, tudo parte de um mundo surreal que eu pensava já não existir. Mas aqui existe, e tem mesma força e a mesma energia que tem tido ao longo dos séculos.

Arranjamos lá um guia que nos dá as primeiras luzes sobre o hinduísmo. É uma religião demasiado complexa, dita as vidas desta gente e marca fortemente uma cultura orgulhosa e imutável. A Índia, dominada pelo hinduísmo, foi dos poucos sítios de todo o império português onde o catolicismo nunca imperou, em vez disso, as principais figuras da nossa religião, como Maria e Jesus, foram abraçadas e absorvidas pelo hinduísmo como mais umas das inúmeras divindades a contemplar e seguir. Pessoalmente, e ainda na minha ignorância, identifico-me mais com a clareza e simplicidade do Budismo na sua ligação à natureza e aos valores essenciais. Os hindus aceitam a sua religião e não a questionam. A sua devoção é sem dúvida comovente, a alegria e a tristeza andam de mãos dadas. Mais do que isto não sei, penso que a Índia me vai mostrar mais sobre o assunto do que o Nepal.

Sei sim que se um homem matar um macaco, mesmo que por acidente, vai três anos preso, e o mesmo acontece com as vacas, mas aí a parada sobe para quinze. Também sei que, quando o marido morre, a sua mulher nunca mais poderá usar encarnado, mas o contrário não se verifica. Sei que só os Sadus e os bebés são enterrados em cemitérios. As pessoas restantes são cremadas e as suas cinzas deitadas ao rio local, que é um afluente do Ganges. Aprendi que os homens têm de arder por duas horas e meia e, curiosamente, as mulheres por três. Soube que quando morre alguém rico, depois de devidamente queimado, começa uma competição para se descobrir os prováveis dentes de ouro ou adereços debaixo da água imunda do rio. Vi as diferentes plataformas de cremação para as diferentes classes sociais: pobres, homens de negócio, ricos e família real. Esta última foi usada em 2001 após a morte trágica de vários membros da realeza. O príncipe Dipendra após conflitos com os pais sobre um alegado namoro, cometeu homicídio em massa, suicidando-se no final. Não foi só uma tragédia nacional, foi o maior acontecimento do género depois dos Romanov em 1918 durante a revolução russa. Vi ainda, num mesmo edifício, quadrangular com um pátio no meio, a partilha no dia-a-dia de duas centenas de pessoas que vivem sem nada, algumas a dormir no pátio pois não há lugar para todos no interior. Numa das alas, dedicada aos doentes, vi a miséria onde a lepra, malária e outras doenças igualmente terríveis são pacientemente tratadas por um grupo de irmãs católicas. Mais tarde soube que foi a Madre Teresa de Calcutá quem fundou o edifício.

É surpreendente a espontaneidade com que coisas que se acham, no mínimo, muito improváveis, acontecem miraculosamente nestes lados. No meio de um complexo Hindu, o mais importante do Nepal e um dos mais importantes do mundo, surgem um grupo de devotas de Cristo, totalmente abraçadas pela população local, sem qualquer tipo de pressão conflituosa pela diferença religiosa ou étnica. A aceitação do próximo é, por cá, um valor intrínseco, independentemente da cor, língua ou religião. Imagine-se o furor que um ritual hindu despertaria na Europa. Neste espaço assistimos a rituais antigos, desprovidos de vaidade ou vergonha, todos estes templos, ruelas, becos e plataformas são percorriveis, palpáveis. Pode-se entrar, tocar cada pedra, sem o medo que ela por qualquer razão parva se desmorone. Não há corredorezinhos à distância turística. A magia permanece inabalável como sempre foi. Custa-me pensar na possibilidade de um dia deixar de ser como é e prefiro acreditar profeticamente na sua permanência. Não consigo encaixar na minha imaginação Pashupatinath turística, sem sadus, sem cremações, sem devotos, ao estilo do Vaticano, com longas filas de espera para se entrar apertado, fotografar violenta e ignorantemente cada escultura do Kamasutra, cada templozinho, cada plataforma. Não quero pensar em guias turísticos que distorcem a realidade para agradar o ouvido do turista. Não quero a febre turística a contaminar a autenticidade da vivência deste lugar. Não vou voltar um dia se for para ter uma desilusão.

Pela tarde fomos a Bakhtapur, outro pólo urbano do vale, o terceiro mais populoso e o mais limpo. Esta cidade foi casa de um dos três reis que habitavam o vale, segundo um local, que nos foi acompanhando. A partir da “Durbar square”, praça do palácio, uma série de ruazinhas de pedra apertadas entre edifícios relativamente altos e majestosos abrem-se periodicamente em pracetas com templos impressionantes. Um deles é o mais alto da zona. O comercio local é de melhor qualidade, e com os preços a descerem cerca de 70% do inicial após negociação cerrada, enchemos alguns sacos com paxeminas e caxemiras. Vimos um combate de Thai-kon-do na rua, uma escola de pintura budista (onde me convenceram a largar uma pequena fortuna por um quadro de um palmo), e acabamos a tarde numa esplanada de cerveja na mão, com o cenário dos Himalaias a surgir entre a neblina.

De noite, de regresso a casa, depois de um arroz com lentilhas e carne de búfalo (vou acreditando que é mesmo búfalo) muito picante fomos dormir. Acordo às quatro da manhã com o ladrar incansável de um cão. Já não vou conseguir dormir mais. Escrevo. Um sino toca de hora a hora. Sinto-me livre como nunca senti. A música dos monges não tarda em recomeçar. Estou feliz.

O Stefano, o meu companheiro nesta viagem, acorda pouco depois. Gozamos esta manhã espectacular com a noção de estarmos perdidos nos Himalaias. Estar longe da vida que conheço, num mundo que não é o meu, mas que me abraça como se eu fosse dele, é uma sensação que não se escreve, pura e simplesmente sente-se.

O Stefano faz um chá. Dou dois tragos valentes quando o chá está mais arrefecido. Infelizmente não é muito bom. Insisto com outro gole, mas definitivamente é o pior chá que alguma vez bebi… O Stefano continua a bebê-lo com cara de quem bebe o melhor chá do mundo. Volto a insistir e apercebo-me do sabor salgado. Lembro-me de lhe pedir que pusesse açúcar no meu. O fim da história está-se mesmo a ver...

13/02/08 Ulleri, Himalaias, Nepal

Amanhã cedo recomeço a caminhada pelo Parque Nacional de Annapurna, o maior em extensão do Nepal. Estou num vale apertado por gigantes os quais bem cedo vou começar a combater. A caminhada até aqui, de quatro horas, baseou-se na subida e descida sucessiva de vales e pés de montanha.
Saí hoje de madrugada de Pokhara e ontem do Vale de Kathmandu, também de madrugada. Neste país a vida começa por volta das seis da manhã sendo que às nove da noite já não se encontram restaurantes abertos. Lembro os últimos dias.
No último dia no Vale, para este intervalo de ar puro nas montanhas, fomos a Patan, cidade a sul colada à capital Kathmandu. Foi um dia recheado de intensidade. Experimentamos pela primeira vez a verdadeira teia que é a rede de transporte público local. Um emaranhado de linhas de autocarro, e um modo bastante mais barato para circular: Doze cêntimos de euro um bilhete, contra os dois ou três euros que um táxi cobraria. A linha que nos interessava era a do “blue bus”. Trata-se de um caótico formigueiro enfileirado de pães de forma azuis minúsculas, com doze lugares e o dobro dos passageiros. Depois de deixarmos passar dois autocarros onde definitivamente já não cabíamos, jurámos para nós próprios que entraríamos no seguinte, mesmo que para isso tivéssemos que contrariar todas as leis da física. Ao fim de sete conseguimos finalmente. Fui até a primeira paragem pendurado do lado de fora, para a segunda sufocado entre um monge enorme, o Stefano e alguns nepaleses numa posição que faria inveja a qualquer Sadu, e daí em diante ao colo do monge que me ia olhando desconfiado. Entre mudanças de autocarro, posições estranhas, brutas gargalhadas (às quais os nepaleses respondiam com o olhar interessado de quem está no jardim zoológico a ver comportamentos estranhos de outras criaturas), e um ou dois quilómetros a pé lá chegamos ao nosso destino.

O centro é muito parecido com Bakhtapur, mas em maior escala e mais espaçoso, de uma beleza cinematográfica. Assistimos às pompas de um casamento hindu, fizemos umas compritas e voltamos. No caminho de volta um nepalês, no “blue bus” avisa-nos que o povo anda um pouco mais agitado que o normal, o preço do gasóleo subiu e a ocorrência de manifestações era muito provável. De facto, ao passarmos pelo centro, um pouco mais tensos e excitados vimos uma intimidante parada militar ao estilo nazi e muita gente por todo o lado. Mais que o normal, corrijo. Não houve manifestação, mas senti uma pressão invulgar, o exército teve o êxito desejado de tirar qualquer esperança a prováveis manifestantes. Pensa-se que neste semestre o Nepal transite de Monarquia para Republica. Diz-se que os movimentos maoístas (que são uma minoria) estão por trás destas mudanças. É óbvio para toda a gente o apoio Chinês a estas minorias. Como o Tibete, a China vai querer o Nepal. Não acredito numa intervenção militar, mas penso que politicamente a sua influência vai deixar, no mínimo, sérias marcas por cá, pois o que a China realmente quer é mais uma anexação, mas desta vez por via politica. Assusta-me pensar num futuro derradeiro para esta gente fruto de um capricho desmesurado de um gigante contra o qual este povo não tem qualquer hipótese. O que é facto é que o primeiro passo está dado, sem o poder de uma monarquia forte, o Nepal está ingenuamente exposto à crescente fome Chinesa. Este país é a maior barreira entre a China e a Índia. As tensões entre as duas maiores potências asiáticas têm vindo a aumentar pois a primeira não admite que a segunda dê refúgio e protecção ao governo exilado do Dalai Lama. E o Nepal pode ser demasiado frágil para tanta pressão. Sinto-me mal por desrespeitar tanto a China. Tenho a certeza que a grande maioria dos Chineses são como os Tibetanos ou os Nepaleses: Naturalmente bons. Mas as suas elites enojam-me.

No dia seguinte, ontem, percorremos duzentos quilómetros até Pokhara, segunda cidade do Nepal. Duzentos quilómetros de ultrapassagens em contra mão por vales e montanhas, muitas aldeias, e gente por todo o lado. Pensei que fosse ver vastas paisagens sem presença humana. Cá a grande maioria da população vive fora das grandes cidades. Enfim, não estou desiludido, vi outras coisas como, na paragem para almoço, umas mãos pretas de sujas a servirem-me de uma espécie de carapaus ainda mais magricelas e estaladiços, os quais tive de ingerir de sorriso na cara para agradar ao povo local que tanto gosto tem em oferecer, e em continuar a encher prato. Os talheres deles são as mãos, e o guardanapo o pulso, se não estiverem de manga comprida. Fora isso, a imensa generosidade que demonstram a encher-nos mais uma e outra vez o prato de coisas estranhas é comovente. Respira-se paz e amor aqui, para além da fumarada dos escapes. Espero não morrer em breve vítima de uma doença incurável. Quando chegar a Lisboa vou fazer análises

Pokhara é uma cidade não tão densa como o Vale. É mais agradável e confortável, é alegrada por um lago e é muito turística. É o último ponto “civilizado” antes das montanhas onde o trecker pode acabar de organizar as coisas para os dias de caminhada. Uma tarde chegou-nos para ver o lago com o seu templo a flutuar numa ilhota ao centro, na realidade muito bonito, mas anseio por montanhas. Apanhámos um Táxi hoje, com o nosso guia Dawa, que nos vai acompanhar nos próximos dias. Somos largados à entrada do parque e começamos uma caminhada de quatro dias, dois de subida até ao ponto mais alto: Poon Hill, palco para algumas das maiores montanhas do mundo, e dois de descida.

Por agora contento-me com a pequena festa de treckers que de desenrola no nosso “hotel”. Chegamos cedo, por volta das duas da tarde e deixamo-nos ficar sentados na explanada do pátio central que dá para o caminho principal do trecking. Fomos os primeiros a chegar e não pensamos sequer na hipótese de irmos ter companhia. Aproveito para escrever, tiramos fotografias, damos umas voltas na zona, descobrimos umas cascatas e voltamos ao “hotel”, à esplanada. Aí por volta das cinco da tarde surge um Italiano que procurava alojamento para a noite e vendo companhia decidiu-se rapidamente a ficar. Daí em diante não pararam de aparecer outros que, vendo a companhia para o jantar a aumentar cada vez mais, não pensaram sequer duas vezes. Neste momento, entre outros, está uma família francesa que viaja à um ano com a filha de sete anos. Temos o inevitável e incomunicável enorme grupo de chineses. Duas italianas, um grupo de cinco ou seis noruegueses, um casal de uma mexicana e um espanhol, os guias de cada grupo, etc… A conversa desenvolve-se pela noite dentro. Sabe muito bem um intervalo no tempo como este para contactar com outras pessoas do mundo que conhecemos, partilhar experiências, ouvir falar de outros lugares, um cheirinho a ocidentalidade para enganar a saudade de casa. Há dias em que não vemos um único turista.

22/02/08 Anjuna, Goa, India

Relembro os últimos dias.

Parece-me impossível pensar que à uma semana atrás estava nos picos do mundo, maravilhado e enregelado. Poon Hill é uma montanha que pára nos 3100m mas que serve de palco para alguns dos mais altos picos dos Himalaias.

No dia do objectivo final acordamos antes das cinco da manhã. Sair de dentro de uma cama exposta a uma corrente de ar frio que vem directamente de lá de cima dos picos, permitida pelo frustrado isolamento dos quartos onde temos dormido é como levar com um balde de água fria. Nas montanhas as aldeiazinhas onde pernoitamos são verdadeiras peças retiradas de contos de fada. Um conjunto de casas e barracões de madeira pintada de azul e branco, ladeados por ruazinhas de pedra, com pontualmente um fardo de palha ou uma fogueira, crianças que brincam de partir os corações mais gélidos, cenas do dia-a-dia que permanecem iguais como eram à séculos como a preparação dos campos para a monção ou o fiar incessante das mais velhas. Os únicos meios de transporte de mercadoria são as caravanas de cavalos e burros que de tão carregados que vão, sangram pelo roçar das cordas nos seus dorsos, percorrendo diariamente estes trilhos de degraus sem fim. Vemos jovens que carregam nas costas cargas impensáveis. Vemos sorrisos encantadores nos rostos desta gente. Estas crianças que vejo, e o povo das montanhas em geral, parecem-me felizes. A verdade é que só dependem de elas próprias para sobreviverem e cada dia é uma luta. Depois penso no que temos no nosso país, na Europa, no mundo ocidental. Nada nos falta, temos acesso a tudo o que precisarmos, mas ainda assim continuamos a querer mais, continuamos sempre insatisfeitos. Iludimo-nos ao convencermo-nos de que somos civilizados, que para além das nossas fronteiras há um mundo de miséria que tem de ser como o nosso para que tudo esteja bem no globo, para que também esse mundo possa um dia ser rotulado de civilizado, ou desenvolvido. Mas agora volto a este povo das montanhas. Sinto a alegria do dia-a-dia, “não conhecem nada mais que isto” lembro-me de ler. Também tenho vontade de ajudar. Mas não sei como. Vamos espalhando as roupas que trazemos a mais por cada aldeia que passamos. Comovente.

Depois de dois dias de subida vamos continuar a sentir na pele aquilo que queremos. Até ao cume ainda restam duas horas de degraus com temperaturas negativas e de noite. Vamos assistir ao nascer do sol. Os últimos dias têm sido de grande nebulosidade, logo há uma forte probabilidade de a subida ser em vão.

No topo do Poon Hill há uma torre com cerca de dez metros de altura, somos os primeiros a chegar e a escuridão é total. Um a um, pequenos grupos de luzinhas movimentam-se na nossa direcção. Sinto-me exausto e a congelar lentamente e penso no porquê de termos vindo tão cedo. Chateado com o frio, vento, ausência de luz e consciente de que o sol ainda vai demorar a surgir, espero. Penso. Abstraio-me das outras presenças, que também esperam e congelam. Paro no tempo e sinto-me sozinho. Ausência de tudo. Estou vazio, só me interessa sobreviver até ao sol nascer. Interrogo-me sobre este povo. Como é que tanta pobreza, num país pequeno mas com vinte e dois milhões de habitantes, tanta pressão maoista, nada em que acreditar para um futuro melhor a não ser na continuidade inalterável dos dias como eles são, como é que mesmo assim não vejo maldade, vaidade, ira ou vandalismo? Porquê? Nunca pensei que isso fosse possível. À partida miséria implica tudo aquilo que é mau. Ou não? O que é que implica a maldade? Espero, Tudo espera, todos esperam. A única certeza que persiste no Nepal é que o sol vai continuar a nascer, e ciclicamente irá morrer, e renascer. Agora só acredito nisso, portanto espero. Espero e sinto a luz a surgir aos poucos. Sinto que afinal a qualidade material de vida não passa de uma ilusão. Sinto o que é real, o que é importante. Sinto a luz e o vazio: O dia. Estou numa ilha pequena, num mar de nuvens brancas. Parece o paraíso, o que não deixa de ser curioso, porque eu não sei como é o paraíso. Há outras ilhas espalhadas neste mar. Pequenos palco para o deslumbre. Aqui a terra grita por céu. Sete gritos verticais superam-se por um lugar no pódio das mais altos. O sol ilumina-os e incendeia-os. Aqui tudo faz sentido. Eu petrifico. Há momentos na vida que ficam incrustados em nós para sempre. Esta imagem que trago na memória testemunha em mim esse momento que guardo na minha ainda pequena colecção de locais fantásticos, ao estilo de Gonçalo Cadilhe.

Logo voltamos para baixo, vamos descer aquilo que subimos. As nuvens desaparecem, ao contrário dos últimos dias e as paisagens que eram fantasmagóricas são agora iluminadas graciosamente. Desço com a ajuda de todos os santos. Sorrio para mim próprio e sinto-me realizado. Presinto uma nova página na minha vida.

A descida foi um momento divino. Limpo, renovado, deixo para trás os suores da subida, os meses de estudo e noitadas de trabalho. Desço para a Terra e penso nos próximos meses, naquilo que quero para o meu futuro, nas minhas potencialidades e como posso dar-lhes uso adequado. Organizo-me por dentro e traço metas e objectivos. Reencontro-me. Sentia-me perdido já a algum tempo e agora lembro aquilo para o qual fui feito. Lembro aqueles de quem mais gosto e daí a dois dias vejo-me mandar mensagens para todos. Estou feliz, no Nepal reencontrei-me e cresci. Venha a Índia.

Dawa, o nosso guia nas montanhas é casado e tem um filho, tem 28 anos e ser guia é a sua profissão. Chega a fazer cinco treckings por mês. Estabelecemos rapidamente uma forte relação com ele. Teve uma educação muito primária, o inglês que sabe aprendeu com os turistas que guia pelas montanhas. Por vezes alguns turistas contratam mais de um guia para levarem as malas. Passamos de vez em quando por pequenas famílias com dois ou três carregadores. Desde logo a ideia parece óptima, não termos de levar as nossas coisas às costas. Neste momento não seria capaz de obrigar outra pessoa a carregar com as minhas coisas. Vemos nepaleses com cargas inumanas. No Nepal um ordenado comum anda à volta das três mil e quinhentas rupias nepalesas, o equivalente a trinta e cinco euros. Dawa faz-me perguntas sobre a qualidade de vida em Portugal e sobre as suas hipóteses de um dia poder ir para a Europa. Ele não sabe é que lá as pessoas não são tão humildes como ele, nem que o preço dos bilhetes de avião necessários é o seu ordenado multiplicado por muitas luas. Tenho uma vontade enorme de o ajudar, de o levar para o meu país e arranjar-lhe um emprego. Colocar o seu filho numa escola e arranjar-lhes uma casa acessível. Mas e depois? Como seria daí para a frente? Ele não conhece nada mais do que a vida como ela é por cá. Como se iria adaptar à mesquinhice portuguesa? Aos costumes e tradições? Como iria suportar um mundo tão diferente do dele? Um mundo de ambições
s onde todos lutam por ser os melhores. Um mundo onde não ter educação escolar no mínimo até aos quinze ou dezasseis anos não permite um emprego minimamente razoável. Penso que o lugar dele é aqui no Nepal. Para o seu filho quer o mesmo trabalho de guia que ele próprio tem. Tento convence-lo a apostar forte educação do filho, mas mesmo eu não acredito muito que isso se venha a realizar. Se em Portugal o acesso ao ensino superior não é ainda acessível a todos como será no Nepal. Dawa percorre estas montanhas com a destreza de quem as conhece à muito. Para mim isso é admirável, penso ser bom que treine o seu filho à sua imagem. Enfrenta o frio com um modesto sobretudo, e os degraus molhados, por vezes cobertos de gelo, com um simples par de ténis. No fim destes dias nas montanhas eu e o Stefano oferecemos-lhe um cachecol, um gorro, um casaco polar e mais alguma roupa para ele e para o filho. A humildade com que aceitou os nossos presentes comoveu-me. As lágrimas nos seus olhos, desprovidas de vergonha ou embaraço, exprimiram bem o seu agradecimento. Acho que não conhecia o significado de gratidão até aquele momento. Dar não implica receber.

Quando voltamos à capital, na despedida, ofereceu-nos um pano de seda dourada a cada um e dá-nos o e-mail de uma inglesa que também se tornou grande amiga dele e que lhe enviou roupa e dinheiro por correio. Dawa, tendo só o seu contacto de e-mail (e por não ter quaisquer conhecimentos de informática) nunca conseguiu agradecer. Pede-nos então que faça-mos chegar aos ouvidos da mulher inglesa o seu agradecimento.

Dia 16 de noite, já de volta ao Vale, vamos para casa mais cedo para organizar as malas para a viagem do dia seguinte. Nostalgicamente penso no muito que o Nepal ainda tem por explorar, quantas mais montanhas, parques naturais, que animais? Elefantes, tigres, rinocerontes ficaram por ver... Tenho a certeza que hei de voltar um dia mas por muito mais tempo. Dez dias deram-me só um pequeno vislumbre sobre o país. O Nepal tem oito das dez maiores montanhas do mundo e é considerado a Meca dos treckers, tem cerca de sete mil espécies de flores e plantas sendo que cinco por cento destas não nascem noutra parte do mundo. Tem toda uma história de paz entre religiões que é muito pouco comum em qualquer outra parte do globo. Num templo hindu é provável encontrar a figura de Buda por exemplo. E um budista pode seguir os costumes hindus não perdendo as suas raízes.

Dando uma última olhada a tudo, revemos a hora do voo: 16/02/08, 09:15, Gate I”. Parece tudo em ordem, no dia seguinte temos de nos levantar cedo. “Luís!” diz o Stefano alarmado. “O avião foi hoje de manhã!”. Não queria acreditar. Perdemos um avião da maneira mais ridícula. Confusão das datas! Vieram-me logo a cabeça as palavras da mulherzinha da agência de viagens em Lisboa: “Ainda bem que compraram os vossos bilhetes dois meses antes, eles esgotam rapidamente!”.

Desesperados procuramos uma agência de viagens que nos arranje um bilhete o mais rápido possível. Na primeira que encontramos aberta o nepalês que nos atendeu no seu inglês super limitado diz-nos que para além de ser pouco provável arranjarmos um voo para o dia seguinte, íamos ter de esperar duas horas pois no momento não havia luz para ele pesquisar. Ultimamente o Nepal só dispõe de oito horas de electricidade por dia. Esperamos as duas horas angustiados e voltamos à agência. Ele diz que não há bilhetes pela Jet Airways para os dias seguintes. Por mero acaso, lembrei-me de perguntar se por qualquer razão fantástica não haveria outra companhia a voar entre Delhi e Kathmandu, ele disse que ia averiguar. Entre telefonemas e pesquisas na internet descobriu uns últimos lugares numa companhia aérea chamada Cosmic Air. Salvos, no dia seguinte fomos cedo demais para o aeroporto como se isso adiantasse o avião. Acontece que no mesmo dia teríamos um voo para Goa, e um pequeno atraso da Cosmic Air comprometia-nos a vida. Ainda escuro, fazemos o check-in. Nós e uma peruana somos os únicos não asiáticos no voo. As coisas passam para o lado do surreal. Naturalmente, mais uma vez, o avião atrasa-se o suficiente para ficar-mos por Delhi. Com os nervos à flor da pele, num avião suspeito (um Focker 100) de uma companhia suspeita, os Himalaias a desapareceram ao fundo e uma algazarra ao estilo indiano, desanimamos. O grande problema é que o outro voo é noutro aeroporto da capital Indiana. Só nos resta que também esse se atrase, ou então que aconteça um milagre.

A descontracção da peruana que vai falando alegremente disto e daquilo é a nossa única distracção. Carla vive actualmente em Lima, mas já viveu e viajou um pouco por todo o mundo. Trabalha na embaixada Britânica. Depois de Delhi vai fazer escalas em Washington e Miami. Conhece tanta gente que em cada escala tem alguém à sua espera que lhe oferece a casa para um banho, uma refeição ou o que quer que mais se faça numa escala grande. Em Delhi o embaixador da Dominica é seu grande amigo. Este vai-lhe mandar o chofeur para uma rápida estadia na sua casa. Chegamos a Delhi com a esperança à beira da morte. É aí que o milagre acontece.

A santa peruana salva-nos pedindo ao chofeur boleia para nós. Um bruto Mercedes está do lado de fora à nossa espera. Numa manhã acabamos por ficar muito amigos de Carla. Deu-nos o seu contacto para irmos dando notícias da Índia. Diz que quer que a vamos visitar, e que quando vier a Portugal quer ficar em nossas casas! Tem amigos em todo o mundo, logo se precisarmos de qualquer coisa é só entrarmos em contacto com ela, mas antes temos de lhe mandar as fotografias das montanhas que ela não teve ainda oportunidade de conhecer, mas que ficou maravilhada ao vê-las na máquina fotográfica do Stefano.

Chegamos ao outro aeroporto mesmo em cima da hora e voamos finalmente descansados para Goa.

26/02/08 Taj Mahal, Agra, Índia

Diante de mim tenho uma obra de amor, uma maravilha humana, uma pérola arquitectónica da Índia. Sinto a polidez da pedra onde me sento, nos três degraus do minarete a poente que a esta hora lança a sua sombra contra a fachada do mausoléu num gesto subtil mas derradeiro.

Na Índia, e também no Nepal, vê-se muito daquilo que o homem é capaz de melhor e pior. Este é um monumento ao amor de um rei indiano à sua rainha, uma imortalização em pedra branca daquilo de que melhor há no mundo. É dos tais sítios onde uma imagem diz mais que mil palavras, e a sua vivência mais que mil imagens.

Uma viagem como esta, tipicamente curta demais para o que se quer ver, exige muita força física e mental para que, gerindo o tempo, se rentabilize ao máximo a aprendizagem que os diferentes locais nos dão. No Nepal vi cenas, imagens, experiências que vão ficar violentamente gravadas para sempre na minha memória. Uma intensidade avassaladora corre nas veias dos Himalaias. Segundo me dizem, a Índia de Varanasi, Rishikesh, Delhi, e mesmo Agra é, em termos de intensidade, mais forte, sem excluir todo um conjunto de outras cidades, como Calcutá ou Bombaim que não irei, para já, conhecer.

Antes de virmos para Agra estivemos em Goa. Fomos de avião de Delhi para lá e no fim da estadia voltamos outra vez para Delhi. Na capital indiana, na qual já estivemos três vezes, e ainda vamos estar uma quarta, sentimos de novo o frio, a confusão, a intensidade, e vivi as horas mais desagradáveis da minha vida.

O avião, vindo de Goa, aterrou na capital já era de noite, e seguimos logo, de táxi, para o terminal de autocarros. Desta vez ainda a noite era uma criança, e o trânsito um inferno. Os indianos conseguem transformar estradas de duas faixas em verdadeiras auto-estradas de quatro ou cinco. Quando se pensa já ter visto tudo e que nada mais nos surpreende basta ir dar um passeio nocturno pelo trânsito dessa cidade. Entre muitos fenómenos lembro-me de uma pequena mota velhinha com uma família de indianos em cima, a avó estava com a descontracção de quem faz tricot.

O táxi largou-nos num gueto que parecia um cemitério de autocarros. Fomos perguntando qual ia para Agra e lá o descobrimos. Eu pura e simplesmente não queria acreditar no que via. O transporte, mal iluminado, tinha um pequeno corredor até ao fundo apertado entre as fileiras de cadeiras, de um lado duas, e do outro três. Por sua vez apertadas umas contra as outras e contra as leis da natureza. Enfim, àquela hora tinha sido muito difícil arranjar lugar num comboio. Mas não era tudo! O chão estava coberto de lixo daquele que só se vê se despejarmos um caixote da rua pelo chão. Não tenho dúvidas de que nunca ninguém se preocupou em limpar. Consequentemente o cheiro era nauseabundo, e as bactérias deviam estar por todo o lado, mas ao fim de uns minutos lá me habituei, nem tinha outra hipótese. Desiludido vejo o autocarro partir. Os bancos tinham uma pequena camada de sujidade… Felizmente podemos ficar com o fundo só para nós e as malas. Mas a situação piorou, àquela hora o frio apertava, e para minha enervação as janelas não tinham as juntas como devem de ser logo não servia de nada fecha-las porque abriam de novo. As quatro horas da infernal viagem iam ser feitas debaixo de uma corrente de ar gelada e contínua. E os gorros, luvas, casaco, etc. dei-os ao Dawa. Quando eu já estava para matar alguém, entra um grupo enorme de indianos, numa das intermináveis paragens, e como os poucos lugares que estavam disponíveis eram os das nossas malas eles lá se sentaram, ou seja, fui o resto da viagem apertado por todos os lados, com a mala em cima de mim, com frio e tosse (que me tem aparecido ultimamente) e a inalar de perto o cheiro terrível que emanava da criatura ao meu lado. Os buracos no alcatrão, as travagens bruscas e as ultrapassagens dão o toque final a esta mistura infernal que ainda estou a ressacar. Mas não! Talvez por achar que o ambiente estava muito pesado no autocarro, o condutor decide espontaneamente que seria uma boa ideia explodir uma música indiana a altos berros! O Stefano dormia tranquilamente enquanto eu entrava em puro estado de stress, aquilo não acabava, de cada vez que olhava para o relógio ele continuava na mesma posição, o tempo não passava! Quando ele acordou ia mandando risos ainda mais enervantes e dizia “Luís, nunca me vou esquecer da cara que tas a fazer neste momento!”, repetidamente. Espero, acumulo stress e espero, tento-me controlar, e finalmente chegamos a Agra. Alívio?

Temos uma pequena multidão de indianos à nossa espera (já passavam algumas horas da meia noite). Queriam impingir-nos hotéis, guias, etc. Quando lhes dissemos o hotel para onde queríamos ir relataram incêndios e catástrofes que lá ocorreram. Demasiado irritados para esquemas explodimos e exigimos rapidamente um rikxó o qual também teve ser discutido pois os preços que nos pediram eram monstros. Um dos homens lá nos fez um preço não tão exorbitante e levou-nos para o nosso destino. Passados cinco minutos a carripana tem um furo. Senti que estava a ser castigado por um Deus indiano, ou por todos ao mesmo tempo! Por fim lá aparece outro que nos leva e aí sim, chegamos finalmente ao nosso destino, deito-me na cama com uma nuvem de mosquitos a voar por cima de mim e a tosse não me deixa dormir. Acho que vou ter mais prazer em viver depois desta experiência, Quero voltar para Goa!

E volto mesmo. Liricamente. Enquanto lá estive não achei apropriado escrever o que quer que fosse sobre o local. Não sei porquê, acho que a única resposta plausível é a de que não me apeteceu.

Depois do Nepal começamos a viagem pela Índia por, como já disse, Goa. Sem qualquer razão especial. Na continuação deste conjunto de experiências na viagem típica de quem quer ver tudo, e “sentir tudo de todas as maneiras”, de quem quer rentabilizar o tempo ao máximo, Goa foi um desperdício de tempo, uma paragem, umas férias na viagem para digerir tudo o que vivemos no Nepal.

Inicialmente programámos as nossas vidas para uma permanência de apenas três dias neste estado, o mais pequeno da Índia. Acontece que ao sairmos do avião, ao sentirmos o calor húmido a percorrer os nossos corpos, ainda enregelados das montanhas, ao vermos florestas de palmeiras picotadas de branco cal por pequenas casas ou igrejas vindas directamente do nosso Alentejo, ao sermos apanhados de surpresa por esta droga que Goa é, que nos consome e obriga a permanecer, por isto tudo decidimos que, em vez de três dias, ficaríamos por uma semana. Em termos ocidentais, férias é a melhor palavra para descrever estes sete dias recheados de praia, sol, festas e futilidade.

Por coincidência comecei e, curiosamente, acabei de ler os livros de Aldous Huxley “Portas da percepção” e “Céu e Inferno”. O segundo é a continuação do primeiro, tipo anexo. Huxley defende o recurso controlado às drogas pesadas, como a mescalina e o LSD, para a abertura da “mente sem limites” através de viagens aos antípodas da própria mente. Segundo o autor, esse poderá ser o caminho para desvendar muitas das questões relacionadas com a psique humana, e também poderá ser a via para um melhor conhecimento do que realmente somos, através de um processo de auto-conhecimento portanto. Há quem defenda o famoso escritor e pensador como o pai daquilo a que o próprio chama de contra-cultura. Os “The Doors” de Jim Morrison, foram uns dos frutos da obra do autor. De uma maneira geral, os Hippies surgiram como fruto dessa obra. A coincidência, ou o elo de contacto com a chatice toda que acabei de escrever, é que Goa é a capital do Trance, bandeira do movimento Hippie.

Contactei directamente com a filosofia de vida destas pessoas, e de certa forma identifico-me. Ninguém precisa que lhes explique o que é um Hippie. Mas ninguém sabe ao certo o que é, até conviver de perto a questão. Apesar de tudo, das ideias radicais e quase utópicas de mudança e revolução, no fundamento a uma maior liberdade mental individual da forma de expressão, do abraçar a paz e o amor para dar sentido às suas vidas, para mim ideias muito atractivas, apesar disso tudo, desse mundo imparcialmente maravilhoso, sinto que a sua existência pouco ou nada serve para um mundo melhor. O respeito pela pessoa como ser autoritário de si próprio, e livre num mundo de oportunidades é louvável. Mas pelo que eu vejo, este mundo e estas pessoas nada fazem por um mundo melhor e não consigo deixar de sentir uma certa contradição, pois há um fechamento neste tal mundo diferente e maravilhoso, que é indiferente ao que se passa no outro mundo que é o das guerras, fome, violência, sofrimento, etc… Repeti a palavra mundo sete vezes. Devia ter dado um nome diferente para cada um dos dois mundos a que me refiro: O real e o drogado. Mas poderia ficar ainda mais estranho.

Huxley diz que sob a influência da mescalina nada mais interessa, só o objecto que se vê, a matéria de cor de cada objecto que nos rodeia, ao qual se atribui uma religiosidade. De resto mais nada interessa. É o que eu sinto em relação a Goa. Nunca passei por essa experiência, mas num mundo como o que vivemos (o real), tomar este princípio como ponto de partida para viver, ignorando as oportunidades que não nos faltam para praticar aquilo que realmente está certo, e que não é disfarçado por drogas é, acima de tudo, egocentrismo e egoísmo, é cortar a essência pela raiz.

Mas estou completamente apaixonado por Goa. Esta paixão é talvez um vício como o das drogas. Lá o tempo não passa.

Em Goa descansamos. Os dias limitam-se à rotina diária de acordar, comer, relaxar na praia, sair para mais uma festa de transe, dormir e acordar de novo. Para quem precisa de descanso Goa deve ser um local a considerar. Tem praias paradisíacas, é muito seguro, tem animação todas as noites, feiras enormes, diurnas e nocturnas, com tudo o que se possa imaginar à venda a preços ridiculamente baixos. Tem história, paisagens lindas e diversidade cultural. Entre palmeiras, vacas, igrejas típicas de Portugal, vendedores entrincheirados por todos os lados, calor e mar, há um certo ambiente familiar que nos envolve ao fim de pouco tempo e que inevitavelmente nos torna parte do dia-a-dia das redondezas. Vamos vendo as mesmas caras e repetindo esporadicamente os “good morning” e “How are you?” dia a pós dia. Drogados por aquele ambiente temos vontade de permanecer para sempre.

Num desses dias quebramos, a muito custo, a futilidade da nossa rotina e fomos conhecer a verdadeira Goa. A Goa Portuguesa. Sempre em autocarros, fomos até Old Goa. Pelo caminho conhecemos um goês com os seus setenta anos que sempre vivera em Goa. Sabia falar português e só o tom de pele o denunciava como indiano, de resto era em tudo igual ao português de setenta anos da aldeia. Falou-nos com muita saudade dos tempos do domínio português sobre a região, o que foi uma grande surpresa para nós. A ideia que eu tinha sobre o assunto era que, por vontade total do povo local e do resto da Índia, os portugueses tinham sido expulsos deliberadamente. A verdade é que essa vontade foi só da Índia. Relativamente ao povo local, segundo o nosso amigo, a vontade era de permanecerem como portugueses. Parece que a transição foi feita quase instantaneamente sem ninguém se aperceber sequer o que se passava. De um dia para o outro estava-se sob domínio indiano. Depois de pesquisar sobre o assunto, apercebi-me que este território pouco tinha em comum com a Índia, a não ser uma (obviamente fortíssima) relação geográfica. Historicamente Portugal tinha todo o direito ao território, mas na ausência de um acordo escrito como um tratado (porque o que existia não passava de algo verbal), e também na ausência de uma força militar digna de fazer frente ao gigante Indiano, a história aconteceu como ela é conhecida. Os Hippies agradecem! Duvido muito de uma combinação luso-hippie.

Voltando a Old Goa. Trata-se de um conjunto, quase um complexo, de catedrais que competem umas com as outras em tamanho e ornamento. São muito bonitas, e o contraste com as palmeiras e as características do terreno é interessantíssima. Mas estava um calor de morte e assim como saímos do auto-carro, nele entramos passado uma ou duas horas para voltar para a praia.

Os dias foram passando (dito assim parece um ano), e por sorte apanhamos a lua cheia. Por qualquer razão, que eu ainda não conheço concretamente, mas que quero conhecer, esta gente tem uma fixação pela lua. Consequentemente fomos à melhor festa de transe das últimas semanas, na praia de Anjuna. Foi uma experiência demasiado psicadélica para descrever. Estou absolutamente melancólico neste momento, e não me apetece entrar em pormenores chatos de lembrar, ou de escrever. Já não vou escrever mais sobre Goa.

Não consigo tirar os olhos to Taj Mahal é demasiado complexo para me ir já embora, já estou aqui sentado a algumas horas e ainda nem penso em sair. Estou diante de uma das sete maravilhas do mundo moderno. Numa cidade com 1.8 milhões de habitantes, a vigésima cidade mais povoada da Índia. Este país tem 1.13 mil milhões de habitantes. Isto significa cento e treze vezes mais pessoas cá que em Portugal. Ou, outra maneira de pensar, cento e treze indianos para cada português. No mundo há cerca de 6.6 mil milhões de habitantes, neste recinto devem estar talvez mil pessoas, talvez menos, ou seja, aproximadamente 0% da população mundial, mas, contudo, pode ser que 80% dessa população, no mínimo, já tenha ouvido falar desta maravilha. Sou um privilegiado? Sou. Acho que só o ter nascido onde nasci fez de mim um privilegiado. Tive, à partida, acesso a um mundo de oportunidades que apenas uma percentagem minoritária da população mundial teve, e continua a ter. É injusto? É. Será que um dia todos vamos ter, à partida, iguais oportunidades? Não sei. Diria que não. Isso é uma Utopia, é o socialismo utópico. Eu prefiro chamar-lhe comunismo. A História diz-me que essa não é a melhor via para dar um rumo politicamente organizado à humanidade. Um livro que li recentemente diz: “Quem não foi comunista aos vinte, não tem coração. Quem o é aos cinquenta, não tem cabeça!”. Eu não o sou aos vinte. Mas não condeno quem seja. Sem utopias não há vontade, sem vontade não há acção, sem acção não há vida. Há preguiça.

Mil pensamentos vão passeando na minha cabeça. Não há vitória sem noção de derrota. Não há bem sem mal, amor sem ódio. Este mausoléu, para ser tão impressionante, para exprimir tão bem um amor, tem que ter um forte sofrimento por trás. Tudo tem um espelho. Concluo que se não houvesse guerra, não haveria paz. Se não houvesse sofrimento, não existia a noção de ajuda, e toda a carga emotiva que o acto de ajudar traz. Acho que o mundo será sempre assim. Uma sucessão infinita de voltas num ciclo vicioso. Nunca se vai atingir a ponta de lado nenhum. O perfeito para uns é o pior para outros. Mas vai-se continuar a tentar. Uns puxam para um lado, outros para outro. E será sempre assim. Se não fosse não tinha graça.

Ajudar é o melhor que se pode fazer na vida. A ajuda ao próximo é o acto mais gratificante que eu conheço. Cá, o simples acto de dar uma t-shirt a uma criança e ter um tempo para lhe tirarmos uma fotografia e mostra-la, dar uma gorjeta a um puxador de rikxó ou apenas uma conversa a alguém mais sozinho é algo que traz a maior recompensa de todas: A pura gratidão. Por vezes é uma lágrima ou só um sorriso tímido, outras vezes uma bruta gargalhada de alegria. Faz-nos sentir humanos. Faz-nos querer ajudar mais e mais. Ficar para sempre. Viver utopicamente, acreditar que o impensável é possível.

Ficar para sempre… Porque não? Já estive mais longe disso. Voltarei depois de construir bases fortes na minha vida. Primeiro há que esclarecer certas coisas.