sábado, 24 de maio de 2008

22/02/08 Anjuna, Goa, India

Relembro os últimos dias.

Parece-me impossível pensar que à uma semana atrás estava nos picos do mundo, maravilhado e enregelado. Poon Hill é uma montanha que pára nos 3100m mas que serve de palco para alguns dos mais altos picos dos Himalaias.

No dia do objectivo final acordamos antes das cinco da manhã. Sair de dentro de uma cama exposta a uma corrente de ar frio que vem directamente de lá de cima dos picos, permitida pelo frustrado isolamento dos quartos onde temos dormido é como levar com um balde de água fria. Nas montanhas as aldeiazinhas onde pernoitamos são verdadeiras peças retiradas de contos de fada. Um conjunto de casas e barracões de madeira pintada de azul e branco, ladeados por ruazinhas de pedra, com pontualmente um fardo de palha ou uma fogueira, crianças que brincam de partir os corações mais gélidos, cenas do dia-a-dia que permanecem iguais como eram à séculos como a preparação dos campos para a monção ou o fiar incessante das mais velhas. Os únicos meios de transporte de mercadoria são as caravanas de cavalos e burros que de tão carregados que vão, sangram pelo roçar das cordas nos seus dorsos, percorrendo diariamente estes trilhos de degraus sem fim. Vemos jovens que carregam nas costas cargas impensáveis. Vemos sorrisos encantadores nos rostos desta gente. Estas crianças que vejo, e o povo das montanhas em geral, parecem-me felizes. A verdade é que só dependem de elas próprias para sobreviverem e cada dia é uma luta. Depois penso no que temos no nosso país, na Europa, no mundo ocidental. Nada nos falta, temos acesso a tudo o que precisarmos, mas ainda assim continuamos a querer mais, continuamos sempre insatisfeitos. Iludimo-nos ao convencermo-nos de que somos civilizados, que para além das nossas fronteiras há um mundo de miséria que tem de ser como o nosso para que tudo esteja bem no globo, para que também esse mundo possa um dia ser rotulado de civilizado, ou desenvolvido. Mas agora volto a este povo das montanhas. Sinto a alegria do dia-a-dia, “não conhecem nada mais que isto” lembro-me de ler. Também tenho vontade de ajudar. Mas não sei como. Vamos espalhando as roupas que trazemos a mais por cada aldeia que passamos. Comovente.

Depois de dois dias de subida vamos continuar a sentir na pele aquilo que queremos. Até ao cume ainda restam duas horas de degraus com temperaturas negativas e de noite. Vamos assistir ao nascer do sol. Os últimos dias têm sido de grande nebulosidade, logo há uma forte probabilidade de a subida ser em vão.

No topo do Poon Hill há uma torre com cerca de dez metros de altura, somos os primeiros a chegar e a escuridão é total. Um a um, pequenos grupos de luzinhas movimentam-se na nossa direcção. Sinto-me exausto e a congelar lentamente e penso no porquê de termos vindo tão cedo. Chateado com o frio, vento, ausência de luz e consciente de que o sol ainda vai demorar a surgir, espero. Penso. Abstraio-me das outras presenças, que também esperam e congelam. Paro no tempo e sinto-me sozinho. Ausência de tudo. Estou vazio, só me interessa sobreviver até ao sol nascer. Interrogo-me sobre este povo. Como é que tanta pobreza, num país pequeno mas com vinte e dois milhões de habitantes, tanta pressão maoista, nada em que acreditar para um futuro melhor a não ser na continuidade inalterável dos dias como eles são, como é que mesmo assim não vejo maldade, vaidade, ira ou vandalismo? Porquê? Nunca pensei que isso fosse possível. À partida miséria implica tudo aquilo que é mau. Ou não? O que é que implica a maldade? Espero, Tudo espera, todos esperam. A única certeza que persiste no Nepal é que o sol vai continuar a nascer, e ciclicamente irá morrer, e renascer. Agora só acredito nisso, portanto espero. Espero e sinto a luz a surgir aos poucos. Sinto que afinal a qualidade material de vida não passa de uma ilusão. Sinto o que é real, o que é importante. Sinto a luz e o vazio: O dia. Estou numa ilha pequena, num mar de nuvens brancas. Parece o paraíso, o que não deixa de ser curioso, porque eu não sei como é o paraíso. Há outras ilhas espalhadas neste mar. Pequenos palco para o deslumbre. Aqui a terra grita por céu. Sete gritos verticais superam-se por um lugar no pódio das mais altos. O sol ilumina-os e incendeia-os. Aqui tudo faz sentido. Eu petrifico. Há momentos na vida que ficam incrustados em nós para sempre. Esta imagem que trago na memória testemunha em mim esse momento que guardo na minha ainda pequena colecção de locais fantásticos, ao estilo de Gonçalo Cadilhe.

Logo voltamos para baixo, vamos descer aquilo que subimos. As nuvens desaparecem, ao contrário dos últimos dias e as paisagens que eram fantasmagóricas são agora iluminadas graciosamente. Desço com a ajuda de todos os santos. Sorrio para mim próprio e sinto-me realizado. Presinto uma nova página na minha vida.

A descida foi um momento divino. Limpo, renovado, deixo para trás os suores da subida, os meses de estudo e noitadas de trabalho. Desço para a Terra e penso nos próximos meses, naquilo que quero para o meu futuro, nas minhas potencialidades e como posso dar-lhes uso adequado. Organizo-me por dentro e traço metas e objectivos. Reencontro-me. Sentia-me perdido já a algum tempo e agora lembro aquilo para o qual fui feito. Lembro aqueles de quem mais gosto e daí a dois dias vejo-me mandar mensagens para todos. Estou feliz, no Nepal reencontrei-me e cresci. Venha a Índia.

Dawa, o nosso guia nas montanhas é casado e tem um filho, tem 28 anos e ser guia é a sua profissão. Chega a fazer cinco treckings por mês. Estabelecemos rapidamente uma forte relação com ele. Teve uma educação muito primária, o inglês que sabe aprendeu com os turistas que guia pelas montanhas. Por vezes alguns turistas contratam mais de um guia para levarem as malas. Passamos de vez em quando por pequenas famílias com dois ou três carregadores. Desde logo a ideia parece óptima, não termos de levar as nossas coisas às costas. Neste momento não seria capaz de obrigar outra pessoa a carregar com as minhas coisas. Vemos nepaleses com cargas inumanas. No Nepal um ordenado comum anda à volta das três mil e quinhentas rupias nepalesas, o equivalente a trinta e cinco euros. Dawa faz-me perguntas sobre a qualidade de vida em Portugal e sobre as suas hipóteses de um dia poder ir para a Europa. Ele não sabe é que lá as pessoas não são tão humildes como ele, nem que o preço dos bilhetes de avião necessários é o seu ordenado multiplicado por muitas luas. Tenho uma vontade enorme de o ajudar, de o levar para o meu país e arranjar-lhe um emprego. Colocar o seu filho numa escola e arranjar-lhes uma casa acessível. Mas e depois? Como seria daí para a frente? Ele não conhece nada mais do que a vida como ela é por cá. Como se iria adaptar à mesquinhice portuguesa? Aos costumes e tradições? Como iria suportar um mundo tão diferente do dele? Um mundo de ambições
s onde todos lutam por ser os melhores. Um mundo onde não ter educação escolar no mínimo até aos quinze ou dezasseis anos não permite um emprego minimamente razoável. Penso que o lugar dele é aqui no Nepal. Para o seu filho quer o mesmo trabalho de guia que ele próprio tem. Tento convence-lo a apostar forte educação do filho, mas mesmo eu não acredito muito que isso se venha a realizar. Se em Portugal o acesso ao ensino superior não é ainda acessível a todos como será no Nepal. Dawa percorre estas montanhas com a destreza de quem as conhece à muito. Para mim isso é admirável, penso ser bom que treine o seu filho à sua imagem. Enfrenta o frio com um modesto sobretudo, e os degraus molhados, por vezes cobertos de gelo, com um simples par de ténis. No fim destes dias nas montanhas eu e o Stefano oferecemos-lhe um cachecol, um gorro, um casaco polar e mais alguma roupa para ele e para o filho. A humildade com que aceitou os nossos presentes comoveu-me. As lágrimas nos seus olhos, desprovidas de vergonha ou embaraço, exprimiram bem o seu agradecimento. Acho que não conhecia o significado de gratidão até aquele momento. Dar não implica receber.

Quando voltamos à capital, na despedida, ofereceu-nos um pano de seda dourada a cada um e dá-nos o e-mail de uma inglesa que também se tornou grande amiga dele e que lhe enviou roupa e dinheiro por correio. Dawa, tendo só o seu contacto de e-mail (e por não ter quaisquer conhecimentos de informática) nunca conseguiu agradecer. Pede-nos então que faça-mos chegar aos ouvidos da mulher inglesa o seu agradecimento.

Dia 16 de noite, já de volta ao Vale, vamos para casa mais cedo para organizar as malas para a viagem do dia seguinte. Nostalgicamente penso no muito que o Nepal ainda tem por explorar, quantas mais montanhas, parques naturais, que animais? Elefantes, tigres, rinocerontes ficaram por ver... Tenho a certeza que hei de voltar um dia mas por muito mais tempo. Dez dias deram-me só um pequeno vislumbre sobre o país. O Nepal tem oito das dez maiores montanhas do mundo e é considerado a Meca dos treckers, tem cerca de sete mil espécies de flores e plantas sendo que cinco por cento destas não nascem noutra parte do mundo. Tem toda uma história de paz entre religiões que é muito pouco comum em qualquer outra parte do globo. Num templo hindu é provável encontrar a figura de Buda por exemplo. E um budista pode seguir os costumes hindus não perdendo as suas raízes.

Dando uma última olhada a tudo, revemos a hora do voo: 16/02/08, 09:15, Gate I”. Parece tudo em ordem, no dia seguinte temos de nos levantar cedo. “Luís!” diz o Stefano alarmado. “O avião foi hoje de manhã!”. Não queria acreditar. Perdemos um avião da maneira mais ridícula. Confusão das datas! Vieram-me logo a cabeça as palavras da mulherzinha da agência de viagens em Lisboa: “Ainda bem que compraram os vossos bilhetes dois meses antes, eles esgotam rapidamente!”.

Desesperados procuramos uma agência de viagens que nos arranje um bilhete o mais rápido possível. Na primeira que encontramos aberta o nepalês que nos atendeu no seu inglês super limitado diz-nos que para além de ser pouco provável arranjarmos um voo para o dia seguinte, íamos ter de esperar duas horas pois no momento não havia luz para ele pesquisar. Ultimamente o Nepal só dispõe de oito horas de electricidade por dia. Esperamos as duas horas angustiados e voltamos à agência. Ele diz que não há bilhetes pela Jet Airways para os dias seguintes. Por mero acaso, lembrei-me de perguntar se por qualquer razão fantástica não haveria outra companhia a voar entre Delhi e Kathmandu, ele disse que ia averiguar. Entre telefonemas e pesquisas na internet descobriu uns últimos lugares numa companhia aérea chamada Cosmic Air. Salvos, no dia seguinte fomos cedo demais para o aeroporto como se isso adiantasse o avião. Acontece que no mesmo dia teríamos um voo para Goa, e um pequeno atraso da Cosmic Air comprometia-nos a vida. Ainda escuro, fazemos o check-in. Nós e uma peruana somos os únicos não asiáticos no voo. As coisas passam para o lado do surreal. Naturalmente, mais uma vez, o avião atrasa-se o suficiente para ficar-mos por Delhi. Com os nervos à flor da pele, num avião suspeito (um Focker 100) de uma companhia suspeita, os Himalaias a desapareceram ao fundo e uma algazarra ao estilo indiano, desanimamos. O grande problema é que o outro voo é noutro aeroporto da capital Indiana. Só nos resta que também esse se atrase, ou então que aconteça um milagre.

A descontracção da peruana que vai falando alegremente disto e daquilo é a nossa única distracção. Carla vive actualmente em Lima, mas já viveu e viajou um pouco por todo o mundo. Trabalha na embaixada Britânica. Depois de Delhi vai fazer escalas em Washington e Miami. Conhece tanta gente que em cada escala tem alguém à sua espera que lhe oferece a casa para um banho, uma refeição ou o que quer que mais se faça numa escala grande. Em Delhi o embaixador da Dominica é seu grande amigo. Este vai-lhe mandar o chofeur para uma rápida estadia na sua casa. Chegamos a Delhi com a esperança à beira da morte. É aí que o milagre acontece.

A santa peruana salva-nos pedindo ao chofeur boleia para nós. Um bruto Mercedes está do lado de fora à nossa espera. Numa manhã acabamos por ficar muito amigos de Carla. Deu-nos o seu contacto para irmos dando notícias da Índia. Diz que quer que a vamos visitar, e que quando vier a Portugal quer ficar em nossas casas! Tem amigos em todo o mundo, logo se precisarmos de qualquer coisa é só entrarmos em contacto com ela, mas antes temos de lhe mandar as fotografias das montanhas que ela não teve ainda oportunidade de conhecer, mas que ficou maravilhada ao vê-las na máquina fotográfica do Stefano.

Chegamos ao outro aeroporto mesmo em cima da hora e voamos finalmente descansados para Goa.

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