sábado, 24 de maio de 2008

26/02/08 Taj Mahal, Agra, Índia

Diante de mim tenho uma obra de amor, uma maravilha humana, uma pérola arquitectónica da Índia. Sinto a polidez da pedra onde me sento, nos três degraus do minarete a poente que a esta hora lança a sua sombra contra a fachada do mausoléu num gesto subtil mas derradeiro.

Na Índia, e também no Nepal, vê-se muito daquilo que o homem é capaz de melhor e pior. Este é um monumento ao amor de um rei indiano à sua rainha, uma imortalização em pedra branca daquilo de que melhor há no mundo. É dos tais sítios onde uma imagem diz mais que mil palavras, e a sua vivência mais que mil imagens.

Uma viagem como esta, tipicamente curta demais para o que se quer ver, exige muita força física e mental para que, gerindo o tempo, se rentabilize ao máximo a aprendizagem que os diferentes locais nos dão. No Nepal vi cenas, imagens, experiências que vão ficar violentamente gravadas para sempre na minha memória. Uma intensidade avassaladora corre nas veias dos Himalaias. Segundo me dizem, a Índia de Varanasi, Rishikesh, Delhi, e mesmo Agra é, em termos de intensidade, mais forte, sem excluir todo um conjunto de outras cidades, como Calcutá ou Bombaim que não irei, para já, conhecer.

Antes de virmos para Agra estivemos em Goa. Fomos de avião de Delhi para lá e no fim da estadia voltamos outra vez para Delhi. Na capital indiana, na qual já estivemos três vezes, e ainda vamos estar uma quarta, sentimos de novo o frio, a confusão, a intensidade, e vivi as horas mais desagradáveis da minha vida.

O avião, vindo de Goa, aterrou na capital já era de noite, e seguimos logo, de táxi, para o terminal de autocarros. Desta vez ainda a noite era uma criança, e o trânsito um inferno. Os indianos conseguem transformar estradas de duas faixas em verdadeiras auto-estradas de quatro ou cinco. Quando se pensa já ter visto tudo e que nada mais nos surpreende basta ir dar um passeio nocturno pelo trânsito dessa cidade. Entre muitos fenómenos lembro-me de uma pequena mota velhinha com uma família de indianos em cima, a avó estava com a descontracção de quem faz tricot.

O táxi largou-nos num gueto que parecia um cemitério de autocarros. Fomos perguntando qual ia para Agra e lá o descobrimos. Eu pura e simplesmente não queria acreditar no que via. O transporte, mal iluminado, tinha um pequeno corredor até ao fundo apertado entre as fileiras de cadeiras, de um lado duas, e do outro três. Por sua vez apertadas umas contra as outras e contra as leis da natureza. Enfim, àquela hora tinha sido muito difícil arranjar lugar num comboio. Mas não era tudo! O chão estava coberto de lixo daquele que só se vê se despejarmos um caixote da rua pelo chão. Não tenho dúvidas de que nunca ninguém se preocupou em limpar. Consequentemente o cheiro era nauseabundo, e as bactérias deviam estar por todo o lado, mas ao fim de uns minutos lá me habituei, nem tinha outra hipótese. Desiludido vejo o autocarro partir. Os bancos tinham uma pequena camada de sujidade… Felizmente podemos ficar com o fundo só para nós e as malas. Mas a situação piorou, àquela hora o frio apertava, e para minha enervação as janelas não tinham as juntas como devem de ser logo não servia de nada fecha-las porque abriam de novo. As quatro horas da infernal viagem iam ser feitas debaixo de uma corrente de ar gelada e contínua. E os gorros, luvas, casaco, etc. dei-os ao Dawa. Quando eu já estava para matar alguém, entra um grupo enorme de indianos, numa das intermináveis paragens, e como os poucos lugares que estavam disponíveis eram os das nossas malas eles lá se sentaram, ou seja, fui o resto da viagem apertado por todos os lados, com a mala em cima de mim, com frio e tosse (que me tem aparecido ultimamente) e a inalar de perto o cheiro terrível que emanava da criatura ao meu lado. Os buracos no alcatrão, as travagens bruscas e as ultrapassagens dão o toque final a esta mistura infernal que ainda estou a ressacar. Mas não! Talvez por achar que o ambiente estava muito pesado no autocarro, o condutor decide espontaneamente que seria uma boa ideia explodir uma música indiana a altos berros! O Stefano dormia tranquilamente enquanto eu entrava em puro estado de stress, aquilo não acabava, de cada vez que olhava para o relógio ele continuava na mesma posição, o tempo não passava! Quando ele acordou ia mandando risos ainda mais enervantes e dizia “Luís, nunca me vou esquecer da cara que tas a fazer neste momento!”, repetidamente. Espero, acumulo stress e espero, tento-me controlar, e finalmente chegamos a Agra. Alívio?

Temos uma pequena multidão de indianos à nossa espera (já passavam algumas horas da meia noite). Queriam impingir-nos hotéis, guias, etc. Quando lhes dissemos o hotel para onde queríamos ir relataram incêndios e catástrofes que lá ocorreram. Demasiado irritados para esquemas explodimos e exigimos rapidamente um rikxó o qual também teve ser discutido pois os preços que nos pediram eram monstros. Um dos homens lá nos fez um preço não tão exorbitante e levou-nos para o nosso destino. Passados cinco minutos a carripana tem um furo. Senti que estava a ser castigado por um Deus indiano, ou por todos ao mesmo tempo! Por fim lá aparece outro que nos leva e aí sim, chegamos finalmente ao nosso destino, deito-me na cama com uma nuvem de mosquitos a voar por cima de mim e a tosse não me deixa dormir. Acho que vou ter mais prazer em viver depois desta experiência, Quero voltar para Goa!

E volto mesmo. Liricamente. Enquanto lá estive não achei apropriado escrever o que quer que fosse sobre o local. Não sei porquê, acho que a única resposta plausível é a de que não me apeteceu.

Depois do Nepal começamos a viagem pela Índia por, como já disse, Goa. Sem qualquer razão especial. Na continuação deste conjunto de experiências na viagem típica de quem quer ver tudo, e “sentir tudo de todas as maneiras”, de quem quer rentabilizar o tempo ao máximo, Goa foi um desperdício de tempo, uma paragem, umas férias na viagem para digerir tudo o que vivemos no Nepal.

Inicialmente programámos as nossas vidas para uma permanência de apenas três dias neste estado, o mais pequeno da Índia. Acontece que ao sairmos do avião, ao sentirmos o calor húmido a percorrer os nossos corpos, ainda enregelados das montanhas, ao vermos florestas de palmeiras picotadas de branco cal por pequenas casas ou igrejas vindas directamente do nosso Alentejo, ao sermos apanhados de surpresa por esta droga que Goa é, que nos consome e obriga a permanecer, por isto tudo decidimos que, em vez de três dias, ficaríamos por uma semana. Em termos ocidentais, férias é a melhor palavra para descrever estes sete dias recheados de praia, sol, festas e futilidade.

Por coincidência comecei e, curiosamente, acabei de ler os livros de Aldous Huxley “Portas da percepção” e “Céu e Inferno”. O segundo é a continuação do primeiro, tipo anexo. Huxley defende o recurso controlado às drogas pesadas, como a mescalina e o LSD, para a abertura da “mente sem limites” através de viagens aos antípodas da própria mente. Segundo o autor, esse poderá ser o caminho para desvendar muitas das questões relacionadas com a psique humana, e também poderá ser a via para um melhor conhecimento do que realmente somos, através de um processo de auto-conhecimento portanto. Há quem defenda o famoso escritor e pensador como o pai daquilo a que o próprio chama de contra-cultura. Os “The Doors” de Jim Morrison, foram uns dos frutos da obra do autor. De uma maneira geral, os Hippies surgiram como fruto dessa obra. A coincidência, ou o elo de contacto com a chatice toda que acabei de escrever, é que Goa é a capital do Trance, bandeira do movimento Hippie.

Contactei directamente com a filosofia de vida destas pessoas, e de certa forma identifico-me. Ninguém precisa que lhes explique o que é um Hippie. Mas ninguém sabe ao certo o que é, até conviver de perto a questão. Apesar de tudo, das ideias radicais e quase utópicas de mudança e revolução, no fundamento a uma maior liberdade mental individual da forma de expressão, do abraçar a paz e o amor para dar sentido às suas vidas, para mim ideias muito atractivas, apesar disso tudo, desse mundo imparcialmente maravilhoso, sinto que a sua existência pouco ou nada serve para um mundo melhor. O respeito pela pessoa como ser autoritário de si próprio, e livre num mundo de oportunidades é louvável. Mas pelo que eu vejo, este mundo e estas pessoas nada fazem por um mundo melhor e não consigo deixar de sentir uma certa contradição, pois há um fechamento neste tal mundo diferente e maravilhoso, que é indiferente ao que se passa no outro mundo que é o das guerras, fome, violência, sofrimento, etc… Repeti a palavra mundo sete vezes. Devia ter dado um nome diferente para cada um dos dois mundos a que me refiro: O real e o drogado. Mas poderia ficar ainda mais estranho.

Huxley diz que sob a influência da mescalina nada mais interessa, só o objecto que se vê, a matéria de cor de cada objecto que nos rodeia, ao qual se atribui uma religiosidade. De resto mais nada interessa. É o que eu sinto em relação a Goa. Nunca passei por essa experiência, mas num mundo como o que vivemos (o real), tomar este princípio como ponto de partida para viver, ignorando as oportunidades que não nos faltam para praticar aquilo que realmente está certo, e que não é disfarçado por drogas é, acima de tudo, egocentrismo e egoísmo, é cortar a essência pela raiz.

Mas estou completamente apaixonado por Goa. Esta paixão é talvez um vício como o das drogas. Lá o tempo não passa.

Em Goa descansamos. Os dias limitam-se à rotina diária de acordar, comer, relaxar na praia, sair para mais uma festa de transe, dormir e acordar de novo. Para quem precisa de descanso Goa deve ser um local a considerar. Tem praias paradisíacas, é muito seguro, tem animação todas as noites, feiras enormes, diurnas e nocturnas, com tudo o que se possa imaginar à venda a preços ridiculamente baixos. Tem história, paisagens lindas e diversidade cultural. Entre palmeiras, vacas, igrejas típicas de Portugal, vendedores entrincheirados por todos os lados, calor e mar, há um certo ambiente familiar que nos envolve ao fim de pouco tempo e que inevitavelmente nos torna parte do dia-a-dia das redondezas. Vamos vendo as mesmas caras e repetindo esporadicamente os “good morning” e “How are you?” dia a pós dia. Drogados por aquele ambiente temos vontade de permanecer para sempre.

Num desses dias quebramos, a muito custo, a futilidade da nossa rotina e fomos conhecer a verdadeira Goa. A Goa Portuguesa. Sempre em autocarros, fomos até Old Goa. Pelo caminho conhecemos um goês com os seus setenta anos que sempre vivera em Goa. Sabia falar português e só o tom de pele o denunciava como indiano, de resto era em tudo igual ao português de setenta anos da aldeia. Falou-nos com muita saudade dos tempos do domínio português sobre a região, o que foi uma grande surpresa para nós. A ideia que eu tinha sobre o assunto era que, por vontade total do povo local e do resto da Índia, os portugueses tinham sido expulsos deliberadamente. A verdade é que essa vontade foi só da Índia. Relativamente ao povo local, segundo o nosso amigo, a vontade era de permanecerem como portugueses. Parece que a transição foi feita quase instantaneamente sem ninguém se aperceber sequer o que se passava. De um dia para o outro estava-se sob domínio indiano. Depois de pesquisar sobre o assunto, apercebi-me que este território pouco tinha em comum com a Índia, a não ser uma (obviamente fortíssima) relação geográfica. Historicamente Portugal tinha todo o direito ao território, mas na ausência de um acordo escrito como um tratado (porque o que existia não passava de algo verbal), e também na ausência de uma força militar digna de fazer frente ao gigante Indiano, a história aconteceu como ela é conhecida. Os Hippies agradecem! Duvido muito de uma combinação luso-hippie.

Voltando a Old Goa. Trata-se de um conjunto, quase um complexo, de catedrais que competem umas com as outras em tamanho e ornamento. São muito bonitas, e o contraste com as palmeiras e as características do terreno é interessantíssima. Mas estava um calor de morte e assim como saímos do auto-carro, nele entramos passado uma ou duas horas para voltar para a praia.

Os dias foram passando (dito assim parece um ano), e por sorte apanhamos a lua cheia. Por qualquer razão, que eu ainda não conheço concretamente, mas que quero conhecer, esta gente tem uma fixação pela lua. Consequentemente fomos à melhor festa de transe das últimas semanas, na praia de Anjuna. Foi uma experiência demasiado psicadélica para descrever. Estou absolutamente melancólico neste momento, e não me apetece entrar em pormenores chatos de lembrar, ou de escrever. Já não vou escrever mais sobre Goa.

Não consigo tirar os olhos to Taj Mahal é demasiado complexo para me ir já embora, já estou aqui sentado a algumas horas e ainda nem penso em sair. Estou diante de uma das sete maravilhas do mundo moderno. Numa cidade com 1.8 milhões de habitantes, a vigésima cidade mais povoada da Índia. Este país tem 1.13 mil milhões de habitantes. Isto significa cento e treze vezes mais pessoas cá que em Portugal. Ou, outra maneira de pensar, cento e treze indianos para cada português. No mundo há cerca de 6.6 mil milhões de habitantes, neste recinto devem estar talvez mil pessoas, talvez menos, ou seja, aproximadamente 0% da população mundial, mas, contudo, pode ser que 80% dessa população, no mínimo, já tenha ouvido falar desta maravilha. Sou um privilegiado? Sou. Acho que só o ter nascido onde nasci fez de mim um privilegiado. Tive, à partida, acesso a um mundo de oportunidades que apenas uma percentagem minoritária da população mundial teve, e continua a ter. É injusto? É. Será que um dia todos vamos ter, à partida, iguais oportunidades? Não sei. Diria que não. Isso é uma Utopia, é o socialismo utópico. Eu prefiro chamar-lhe comunismo. A História diz-me que essa não é a melhor via para dar um rumo politicamente organizado à humanidade. Um livro que li recentemente diz: “Quem não foi comunista aos vinte, não tem coração. Quem o é aos cinquenta, não tem cabeça!”. Eu não o sou aos vinte. Mas não condeno quem seja. Sem utopias não há vontade, sem vontade não há acção, sem acção não há vida. Há preguiça.

Mil pensamentos vão passeando na minha cabeça. Não há vitória sem noção de derrota. Não há bem sem mal, amor sem ódio. Este mausoléu, para ser tão impressionante, para exprimir tão bem um amor, tem que ter um forte sofrimento por trás. Tudo tem um espelho. Concluo que se não houvesse guerra, não haveria paz. Se não houvesse sofrimento, não existia a noção de ajuda, e toda a carga emotiva que o acto de ajudar traz. Acho que o mundo será sempre assim. Uma sucessão infinita de voltas num ciclo vicioso. Nunca se vai atingir a ponta de lado nenhum. O perfeito para uns é o pior para outros. Mas vai-se continuar a tentar. Uns puxam para um lado, outros para outro. E será sempre assim. Se não fosse não tinha graça.

Ajudar é o melhor que se pode fazer na vida. A ajuda ao próximo é o acto mais gratificante que eu conheço. Cá, o simples acto de dar uma t-shirt a uma criança e ter um tempo para lhe tirarmos uma fotografia e mostra-la, dar uma gorjeta a um puxador de rikxó ou apenas uma conversa a alguém mais sozinho é algo que traz a maior recompensa de todas: A pura gratidão. Por vezes é uma lágrima ou só um sorriso tímido, outras vezes uma bruta gargalhada de alegria. Faz-nos sentir humanos. Faz-nos querer ajudar mais e mais. Ficar para sempre. Viver utopicamente, acreditar que o impensável é possível.

Ficar para sempre… Porque não? Já estive mais longe disso. Voltarei depois de construir bases fortes na minha vida. Primeiro há que esclarecer certas coisas.

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