sábado, 24 de maio de 2008

13/02/08 Ulleri, Himalaias, Nepal

Amanhã cedo recomeço a caminhada pelo Parque Nacional de Annapurna, o maior em extensão do Nepal. Estou num vale apertado por gigantes os quais bem cedo vou começar a combater. A caminhada até aqui, de quatro horas, baseou-se na subida e descida sucessiva de vales e pés de montanha.
Saí hoje de madrugada de Pokhara e ontem do Vale de Kathmandu, também de madrugada. Neste país a vida começa por volta das seis da manhã sendo que às nove da noite já não se encontram restaurantes abertos. Lembro os últimos dias.
No último dia no Vale, para este intervalo de ar puro nas montanhas, fomos a Patan, cidade a sul colada à capital Kathmandu. Foi um dia recheado de intensidade. Experimentamos pela primeira vez a verdadeira teia que é a rede de transporte público local. Um emaranhado de linhas de autocarro, e um modo bastante mais barato para circular: Doze cêntimos de euro um bilhete, contra os dois ou três euros que um táxi cobraria. A linha que nos interessava era a do “blue bus”. Trata-se de um caótico formigueiro enfileirado de pães de forma azuis minúsculas, com doze lugares e o dobro dos passageiros. Depois de deixarmos passar dois autocarros onde definitivamente já não cabíamos, jurámos para nós próprios que entraríamos no seguinte, mesmo que para isso tivéssemos que contrariar todas as leis da física. Ao fim de sete conseguimos finalmente. Fui até a primeira paragem pendurado do lado de fora, para a segunda sufocado entre um monge enorme, o Stefano e alguns nepaleses numa posição que faria inveja a qualquer Sadu, e daí em diante ao colo do monge que me ia olhando desconfiado. Entre mudanças de autocarro, posições estranhas, brutas gargalhadas (às quais os nepaleses respondiam com o olhar interessado de quem está no jardim zoológico a ver comportamentos estranhos de outras criaturas), e um ou dois quilómetros a pé lá chegamos ao nosso destino.

O centro é muito parecido com Bakhtapur, mas em maior escala e mais espaçoso, de uma beleza cinematográfica. Assistimos às pompas de um casamento hindu, fizemos umas compritas e voltamos. No caminho de volta um nepalês, no “blue bus” avisa-nos que o povo anda um pouco mais agitado que o normal, o preço do gasóleo subiu e a ocorrência de manifestações era muito provável. De facto, ao passarmos pelo centro, um pouco mais tensos e excitados vimos uma intimidante parada militar ao estilo nazi e muita gente por todo o lado. Mais que o normal, corrijo. Não houve manifestação, mas senti uma pressão invulgar, o exército teve o êxito desejado de tirar qualquer esperança a prováveis manifestantes. Pensa-se que neste semestre o Nepal transite de Monarquia para Republica. Diz-se que os movimentos maoístas (que são uma minoria) estão por trás destas mudanças. É óbvio para toda a gente o apoio Chinês a estas minorias. Como o Tibete, a China vai querer o Nepal. Não acredito numa intervenção militar, mas penso que politicamente a sua influência vai deixar, no mínimo, sérias marcas por cá, pois o que a China realmente quer é mais uma anexação, mas desta vez por via politica. Assusta-me pensar num futuro derradeiro para esta gente fruto de um capricho desmesurado de um gigante contra o qual este povo não tem qualquer hipótese. O que é facto é que o primeiro passo está dado, sem o poder de uma monarquia forte, o Nepal está ingenuamente exposto à crescente fome Chinesa. Este país é a maior barreira entre a China e a Índia. As tensões entre as duas maiores potências asiáticas têm vindo a aumentar pois a primeira não admite que a segunda dê refúgio e protecção ao governo exilado do Dalai Lama. E o Nepal pode ser demasiado frágil para tanta pressão. Sinto-me mal por desrespeitar tanto a China. Tenho a certeza que a grande maioria dos Chineses são como os Tibetanos ou os Nepaleses: Naturalmente bons. Mas as suas elites enojam-me.

No dia seguinte, ontem, percorremos duzentos quilómetros até Pokhara, segunda cidade do Nepal. Duzentos quilómetros de ultrapassagens em contra mão por vales e montanhas, muitas aldeias, e gente por todo o lado. Pensei que fosse ver vastas paisagens sem presença humana. Cá a grande maioria da população vive fora das grandes cidades. Enfim, não estou desiludido, vi outras coisas como, na paragem para almoço, umas mãos pretas de sujas a servirem-me de uma espécie de carapaus ainda mais magricelas e estaladiços, os quais tive de ingerir de sorriso na cara para agradar ao povo local que tanto gosto tem em oferecer, e em continuar a encher prato. Os talheres deles são as mãos, e o guardanapo o pulso, se não estiverem de manga comprida. Fora isso, a imensa generosidade que demonstram a encher-nos mais uma e outra vez o prato de coisas estranhas é comovente. Respira-se paz e amor aqui, para além da fumarada dos escapes. Espero não morrer em breve vítima de uma doença incurável. Quando chegar a Lisboa vou fazer análises

Pokhara é uma cidade não tão densa como o Vale. É mais agradável e confortável, é alegrada por um lago e é muito turística. É o último ponto “civilizado” antes das montanhas onde o trecker pode acabar de organizar as coisas para os dias de caminhada. Uma tarde chegou-nos para ver o lago com o seu templo a flutuar numa ilhota ao centro, na realidade muito bonito, mas anseio por montanhas. Apanhámos um Táxi hoje, com o nosso guia Dawa, que nos vai acompanhar nos próximos dias. Somos largados à entrada do parque e começamos uma caminhada de quatro dias, dois de subida até ao ponto mais alto: Poon Hill, palco para algumas das maiores montanhas do mundo, e dois de descida.

Por agora contento-me com a pequena festa de treckers que de desenrola no nosso “hotel”. Chegamos cedo, por volta das duas da tarde e deixamo-nos ficar sentados na explanada do pátio central que dá para o caminho principal do trecking. Fomos os primeiros a chegar e não pensamos sequer na hipótese de irmos ter companhia. Aproveito para escrever, tiramos fotografias, damos umas voltas na zona, descobrimos umas cascatas e voltamos ao “hotel”, à esplanada. Aí por volta das cinco da tarde surge um Italiano que procurava alojamento para a noite e vendo companhia decidiu-se rapidamente a ficar. Daí em diante não pararam de aparecer outros que, vendo a companhia para o jantar a aumentar cada vez mais, não pensaram sequer duas vezes. Neste momento, entre outros, está uma família francesa que viaja à um ano com a filha de sete anos. Temos o inevitável e incomunicável enorme grupo de chineses. Duas italianas, um grupo de cinco ou seis noruegueses, um casal de uma mexicana e um espanhol, os guias de cada grupo, etc… A conversa desenvolve-se pela noite dentro. Sabe muito bem um intervalo no tempo como este para contactar com outras pessoas do mundo que conhecemos, partilhar experiências, ouvir falar de outros lugares, um cheirinho a ocidentalidade para enganar a saudade de casa. Há dias em que não vemos um único turista.

1 comentário:

Anónimo disse...

Adorei ler... devia publicar! Descreve lindamente o que se sente no Nepal!!!É mesmo isso...
A India...ao principio é um murro no estomago mas deixa de doer e torna-se magico!
Balocas